A dor que a raiva oculta
Nunca vai passar
Enquanto houver a culpa
Vinda de outro lugar...
A dor que a raiva trava
É como engarrafar
O trânsito de um viaduto
Sem poder ir e nem voltar...
A dor que a raiva sente
É fácil de se ver
Vem lá de dentro até os dentes
É tão difícil de conter...
Se a raiva não se enxerga
Se a raiva não se escuta
Se a raiva só se oculta
É lá que vai ficar...
Raiva - Nenung
Houve tempos em que escrevia todos os dias; agora, dificilmente escrevo mais de uma vez por semana e, mesmo assim, parece que falta assunto. Cogito que é porque os assuntos não mudaram, por isso me sinto repetitiva vindo aqui. Mas o blog é meu, certo? Serve justamente pra eu desabafar quando sentir vontade.
Tenho muito rancor guardado, dói como o pé dentro de um sapato apertado. Até o retardado do escritório tem uma frase no mural que diz que o ressentimento é um veneno que se toma querendo que o outro morra... E não é que é mesmo? Mas o que devo fazer, jogar tudo pra debaixo do tapete e fingir que dá certo? Enchi o saco do famoso "tempo ao tempo", sabe...
Hoje eu ouvi Jack Johnson a manhã toda, a cada música pensei em um jeito de torturá-lo. Engraçado como na minha cabeça essa raiva é puramente física, é uma gana obsessiva e insana. Mordia os lábios enquanto me imaginava quebrando-lhe os ossos, os dentes, o nariz, enchendo-o de socos no estômago. Pra quem acredita na energia do pensamento, se Renan tivesse um jardim, estaria todo seco agora. E eu tenho tanta tristeza quanto vergonha por esse tipo de sentimento, por não conseguir simplesmente deixar pra lá. Que sede de vingança insensata é essa, que não vai embora nem com meu consciente desprezo por ela? Depois de ver meu castelinho de areia sendo destruído, ainda não consegui nem pensar em construir outro, estou parada na areia plana sem ter um "hel-looo" que adiante. Fico eu vagando pelo vazio em busca dos castelinhos de Renan, pra destruí-los igualmente, jogar-lhe areia nos olhos e deixar um buraco no chão.
Não é mesmo triste isso? Vivo em função dele, mas no sentido contrário. Menti todas as vezes em que lhe disse "eu compreendo", eu nunca compreendi, eu nunca consegui perdoá-lo. E a minha mísera parte boa me diz que é isso mesmo que preciso fazer, mas não sei como... Tenho que tirar da cabeça essa ridícula ideia fixa de que ele me deve algum tipo de penitência, tenho que virar a página. Renan pode muito bem ser mais feliz, mais rico e mais bem-resolvido do que eu, e estará sendo apenas mais competente. E se eu não parar de agourar sua vida enquanto a minha passa, além de infeliz, pobre e frustrada, vou terminar completamente louca, lunática moradora do São Pedro; porque se a raiva é um combustível do sofrimento, também pode acabar virando um veneno pra razão.





