quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Cadeiras, biritas e saudades

Já falei que comecei a ir às aulas? Não me recordo... Mas enfim, vou tentar falar um pouco da academia também, visto que, ao final do intercâmbio, teremos de fazer um relatório contando algumas de nossas experiências, o qual não envolverá festas, porres, shoppings, mancadas e fast foods. Já fui a cinco cadeiras das seis que deverei cursar; ainda não sei o horário das duas cadeiras pedagógicas atualmente incluídas em nosso plano de estudos, porque a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação ainda não nos deu resposta quanto aos horários das disciplinas (a UC é segmentada em faculdades que têm certa autonomia; na Faculdade de Letras, não há uma licenciatura em português, por exemplo, mas sim um bacharelado que permitirá ao aluno ser professor caso ele curse cadeiras pedagógicas na FPCE). Semana passada, uma colega da FURG foi se matricular e recebeu a resposta de que o departamento de matrícula não conhecia o PLI, devendo ela retornar outro dia. Tivemos que contar isso à nossa coordenadora, que ficou puta com razão, e que vai fazer o possível pra que possamos nos matricular na semana que vem - aqui a gente se matricula para um ano inteiro, e não apenas para o primeiro semestre.

A primeira aula que tive foi na segunda, com ela mesma, a coordenadora Ana Macário. A cadeira é Linguística Portuguesa 4, que aborda a semântica do português contemporâneo. As salas aqui são mais antigas, as cadeiras e mesas são de madeira, duplas e fixas ao chão, com apenas o assento móvel, que baixamos para nos sentar (como cadeiras de cinema e teatro, só que rústicas). O quadro é negro não só no nome, e a mesa do professor fica numa bancada um pouco mais alta. Essa turma não tem muitos alunos, no máximo uns dez. As duas aulas que tive, na segunda e na quarta, foram ótimas. A professora explica muito bem, e o tempo é aproveitado ao máximo. Já tinha um background quanto a léxico, signo e outros assuntos importantes na discussão, o que ajudou bastante. As aulas não diferem muito da Uni, são seminários que devem se combinar com as leituras propostas para que realmente aprendamos. Quanto ao Dani e eu, não podemos reclamar do curso de Letras da Unisinos, aqui não há nada de muito novo que não tenhamos abordado no Brasil. O que muda é a exigência, acho que vamos ter que ler o triplo do que líamos lá, mas isso já esperávamos. A UC é uma universidade pública, imagino que se assemelhe muito à UFRGS em termos de atividades extra-curriculares exigidas e horários malucos que às vezes mal permitem ao aluno trabalhar meio turno. Essa é outra diferença, no Brasil a gente tinha que trabalhar também, aqui acho que seria difícil, mesmo que pudéssemos. Não há aulas à noite, no máximo das seis às oito, e não há muito horário que escolher. As disciplinas de português tem no máximo duas opções de turmas, às vezes nos mesmos dias e no mesmo horário.

A professora de Literatura Portuguesa 2, Maria João, foi a mais difícil de entender no primeiro momento, o sotaque dela é muito fechado. O "quê" é "cã", o "dê" é "dã" e na primeira aula, até entender que ela se referia a Alberto Caeiro, já tinha escrito Carneiro, Canheiro e Cordeiro. A aula é boa também, já temos sete leituras definidas para o semestre, incluindo Saramago (adorei). O conteúdo inicial é Pessoa e seus heterônimos.

Em Estudos Camonianos, o professor é um senhor simpático chamado José Carlos. Engraçado foi percebermos nessa aula que o pessoal nos reconhece como brasileiros de longe. Ele nos perguntou de onde éramos nós respondemos que do Brasil, mas na verdade queria saber de que parte do Brasil, porque a tupiniquice pra ele já estava estampada. Elogiou alguns estudiosos brasileiros que contribuíram pra triagem da obra de Camões, menciona com frequência Machado ao falar de Romantismo ou Realismo. Confesso que o Dani e eu quase dormimos na primeira aula, mas é que estávamos cansados. Na segunda, levamos uma Coca pra garantir. O legal dessa cadeira será a abordagem do contexto histórico e literário de Camões, e obviamente já me pus a ler Os Lusíadas.

Na sexta, tivemos uma surpresa agradável com Linguagem e Comunicação. É uma cadeira transversal que reúne diversos cursos da Faculdade de Letras, a professora Maria Joana é engraçadíssima (deu pra reparar que as Marias são bem comuns por aqui...), vamos trabalhar diversos aspectos da Teoria da Comunicação, e na aula passada ela também nos deu várias dicas práticas sobre como se portar perante uma plateia. Sabe aquelas cenas clássicas dos nossos colegas de escola apresentando um trabalho curvados com a cara sobre uma folha de papel falando bem baixinho? Essas coisas... A disciplina me lembra um pouco Contextos e Organização do Discurso quando aborda competência discursiva e falhas na comunicação, e achei ótima essa visão do professor como comunicador, não é evidente? Há tanto docente por aí que possui conhecimento suficiente pra ensinar, porém mal sabe se fazer entender.

Fora a pedagógica Desenvolvimento Curricular, falta ir à aula de Inglês 1. Fiz uma prova de múltipla escolha semana passada pra definir em qual turma ficarei. Só estava eu na sala na terça, e na quinta nem teve aula. A professora que me aplicou a prova era uma senhora simpática com cara de chá das cinco, talvez fosse mesmo inglesa, só sei que é falante nativa do inglês. Foi escrever no quadro "acontecerão" e saiu um "acontecerem", eu tentei ajudar com o final mas ela acabou criando um "acontecerãom", e então encheu o saco, apagou tudo e escreveu "vão acontecer", dando um sorriso vitorioso. Adorei.

E essas são as primeiras impressões das aulas na UC... Só vou finalizar essa parte contando que a estrutura do nosso pólo é antiga não só por fora. Ainda não me acostumei com essa coisa de haver várias bibliotecas e não só uma, como na Uni. Aliás, em termos de modernidade e organização do catálogo, a Unisinos está bem melhor. Aqui há um sistema de consulta online, é claro, mas eles ainda estão no tempo do papelzinho. A gente consulta o local da obra, coloca nossos dados - nome, endereço, curso etc. - e entrega pra bibliotecária. Podemos levar um livro pra casa apenas por quarenta e oito horas, no caso a intenção é que tu sente e leia por lá mesmo. Na sexta, o Dani e eu retiramos um livro pra fotocopiar, umas vinte páginas, e a mulher do xerox disse que eram muitas e que só podia deixar pronto na segunda. Dissemos que precisávamos entregar o livro no mesmo dia, aí ela prometeu pra dali a dez minutos. No Brasil, uma loja com prazos assim não sobreviveria um mês.

Y bien, agora eu estou no quarto da pousada, de estômago roncando, ouvindo um som no Media Player. Fiquei com um carioca na sexta, um PLI da Biologia da UFRJ, de longe parece o Robinho. Acho que ele e o amigo vão ficar pelo Antunes até segunda. Ontem foi meio estranho, parece que ficou subentendido que sairíamos juntos, mas o Dani e eu não esperamos e fomos sozinhos pra Associação Acadêmica. Quem sabe tenha sido melhor, sou romântica demais pra correr o risco de entrar de novo num rolo a la Elton. Deixa eles se mudarem pro outro lado do Mondego, que eu preciso baixar a cabeça e estudar. É claro que no finde se pode dar uma descontraída, dançar entre um gole e outro de tequila (saudade das gurias!)... Gente, aqui o que mais tem é balada parada, ninguém dança nem se pega, uma tristeza. Da penúltima vez, sexta-feira, nós entramos numas três festas, tinha até uma mini have num lugar ótimo com uma música foda, mas ninguém se mexia. Nos achamos mesmo no Noites Longas, às três da manhã, é um bequinho pouco maior que o Pop Cult, estilo rock. É onde eu perdi a comanda no meu primeiro porre, lembram? O segurança até me reconheceu, deu a dica de memorizar o número da comanda caso perdesse (só não sei se conseguiria decorar alguma coisa bêbada...).

Enfim, foi-se a cronologia nesse post. A maior parte da galera também se foi, ver praia em Figueira da Foz, eu não curti muito a ideia e fiquei. O Dani também não foi, deve estar dormindo ainda, vou ver se acordo ele pra almoçar comigo. Esse fuso horário deprime um pouco, odeio não ver ninguém no MSN, odeio ver minha caixa de entrada vazia, e o Renan mais distante que dois Atlânticos corridos. Queria dormir na minha cama, sabe... Esse lado da distância é bem foda, muito mais do que se imagina.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Coimbra, cheguei!


Oi, gente! Mais especificamente, oi, gurias! Finalmente consegui achar um tempo pra escrever... Tô com os horários meio bagunçados ainda, hoje tive três aulas e quase dormi na última, o que me fez lembrar que preciso passar a dormir mais. Desde que chegamos e até ontem, batemos perna pela cidade por horas a fio, subindo e descendo escadas e ladeiras, ou pra procurar apartamento (já encontramos uma casa, acho que nos mudaremos na quinta), ou pra visitar algum lugar legal. A cidade é linda, cheia de contrastes, cheia do diferente. No início, parecia que eu tava de férias ou algo assim... Mas a sensação durou pouco, que logo já tivemos que fazer o NIF, uma espécie de CPF Português, encaminhar o visto de residência, providenciar a matrícula... A aula inaugural, que diziam que não podíamos perder, estava tediosíssima. Melhor foi o concerto de abertura das aulas de uma orquestra contemporânea, o Lume. A agenda cultural é bem movimentada, logo vai ter um balé de Romeu e Julieta e O Auto da Barca do Inferno que também queremos ver.

Ah, preciso mandar um valeu pra Monique, botei a turma toda pra controlar os gastos no Organizze. Não que as coisas sejam caras, almoça-se bem numa cantina por pouco mais de dois euros, mas a Capes vai demorar a depositar o salário. Eu ainda nem recebi o valor inicial, só agora me mandaram o motivo pra resolver a pendência... Ainda bem que papai vai me mandar mais um pouco de dinheiro.

A Universidade de Coimbra é bonita também, os alunos usam um traje tradicional com uma capa preta que eu achei o máximo. Tudo tem um ar mais clássico, cheio de monumentos, estátuas e colunas. Essa semana o pessoal tá passando trote, chamam isso de praxe. Havia vários grupinhos de "caloiros" sendo submetidos pelos veteranos, tendo que dançar, gritar, subir e descer escadas, dar as mãos por debaixo das pernas, se ajoelhar, rezar, beber e fazer tudo o mais que lhe disserem de cabeça baixa. O Gui topou ser um praxe, voltou agora à tarde rouco e fedendo a pinga. Disse que "foi bem legal mas amanhã eu não vou mais". Eu tô fora, vou fazer como a professora de Latim do Dani disse: "finja-se de veterano".

E falando em beber... Eu até não pensei que fosse sair tão cedo, mas no sábado, fomos à Praça da República com o resto da gauchada. Acabamos por ir à Associação Acadêmica de Coimbra, com a galera da UFPel (tem uns gays animadíssimos na turma), tava rolando um pop. O legal é que aqui não se paga entrada, no máximo há um valor de consumação. Pois bem, não tinha Smirnoff ou tinha mas não sei como chamam aqui, então pedi vodka com qualquer coisa e o tio me deu uma dose com Pepsi. Na terceira já tava meio zonza, e ainda resolvi tomar dois chotes endiabrados de sei lá o quê. Foi o suficiente pra sair cambaleando pela pista, um pouco dançando um pouco me segurando nos outros; depois ser carregada pra outra balada de rock, perder a comanda e por pouco não ter um prejuízo de cinquenta euros; ficar com o Rudinei, um guri meio bobo da Matemática da UFPel, e ter de ser trazida às seis e meia da manhã por ele e pelo Gui, com a única e ébria preocupação de acordar cedo pra tomar café na pousada. "Tu não vai tomar café amanhã", disse o Gui. Estava certíssimo, claro. Acordei à uma, o Gui me contou as coisas que eu não lembrava. O curioso é que não é comum ver pessoas se beijando em festa, disse o Gui que ficou todo mundo me olhando como se fosse um bicho estranho.

No domingo, comemos picanha com arroz, feijão e batata frita num lugar chamado X-Tudo, uma pena que não tinha xis mesmo, e o cachorro quente aqui também é diferente. Mas foi bom comer feijão outra vez... Depois fomos ao shopping de Coimbra, só pra olhar vitrines mesmo. Fica mais longe, do outro lado do Rio Mondego, mas vale a pena só pela vista que se tem da parte antiga da cidade. E a gente já tá até se acostumando a caminhar horrores... Ao final do dia, voltando pro residencial, demos a sorte de nos depararmos com uma coisa inusitada: a Orquestra de Sopros de Coimbra se apresentando ao ar livre, tocando até música brasileira com direito a um grito de "Brasil!" no final. Impossível não conter um "uhuul!" bem tupiniquim ao fim da peça; foi uma das coisas mais emocionantes que já vi.


domingo, 12 de setembro de 2010

Até o último minuto

No edital da Capes, deveria estar previsto: "é preferível que os candidatos não sofram de problemas cardíacos ou ansiedade crônica, pois eles serão submetidos a alto grau de adrenalina até o dia do embarque".

Recém na sexta, decidimos a data de viagem dos primeiros cinco alunos (as Fernandas, substitutas das desistentes, irão no final da semana junto com a profª Cecilia), mas aí a Capes noticiou que, independentemente de nossa decisão, as passagens já estavam emitidas para o dia 13, pois os voos andam muito cheios. Já temos a data, mas ainda não nos enviaram os tickets, é provável que o recebamos apenas amanhã, para então descobrirmos o horário e corrermos pro aeroporto! As recomendações são aguardar de malas prontas e ficar de olho no e-mail e celular, torcendo pra que o voo seja noturno. Acho que não vou nem conseguir dormir direito, madrugarei em plena segunda gelada. Se tivesse um jeito de fazer o computador bipar alto a cada e-mail recebido, eu o faria.

Na sexta já foi tenso, apenas a Karen (Biologia), o Daniel (Letras) e eu tínhamos o visto em mãos pra poder ir. O Gui (Matemática) e a Natália (Biologia) pegaram o passaporte ontem. Ela, o Daniel e eu ainda não recebemos o dinheiro inicial, acho que vou sair daqui pelada mesmo. O primeiro plano era irmos todos juntos, mas nos atrasaríamos pra aula inaugural (dia 15). A decisão era nossa. O pai da Natália colocou muita pressão pra nos separarmos, tanto na hora de ir quanto à moradia, e isso não foi legal. Certamente que optaríamos por ir os cinco primeiro, e sempre há possibilidade de não convivermos muito bem em grande grupo, mas pô tio, não precisava quebrar o clima assim de cara... Até porque em conjunto as coisas ficam mais baratas.

Enfim, tô me roendo... As horas nunca passaram tão devagar. Assim não dá tempo nem de cair a ficha, de me dar conta de que, até 2012, esse foi meu último domingo em família, meu último churrasco com arroz, aipim e maionese, meus últimos carinhos na Tuti e no Urso, minha última noite dormindo com essa pantufa... Ai, ai, acho que vou pirar... Preciso de um chocolate!


segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Cabeça a vácuo


Já contei que ando fora da casinha? - ...Ok, piada pronta, eu já nasci fora... Mas digamos que eu esteja mais ainda. Sábado à noite, coloquei uma chaleira de água no fogo pra fazer um chá e fui dormir. A sorte foi que mamãe - sempre mamãe... - sentiu que a madrugada tinha algo estranho no ar e levantou pra checar, evitando que a chaleira se derretesse sobre o fogão e sei lá o que mais poderia acontecer. Com muito mais frequência, esqueço informações importantes no caminho da cozinha ao quarto, esqueço o que ia falar. A mãe me aconselhou a comprar um guaraná cerebral e comentar essa fora-da-casice com o médico hoje de manhã, mas (adivinha?) esqueci de fazê-lo.

São reuniões que não acabam mais, há horas que não consigo nem dar as caras no PPG. Hoje levei meus pais à Uni, pra conversarmos com a Adila, coordenadora da Letras. "Fala mais que o home da cobra", disse o pai. Pior que não tem como negar... Mas também é difícil encontrar alguém tão prestativa como ela. Voltamos com dois ônibus, de São Léo a Novo Hamburgo pegamos um pinga de morrer. Passamos por tanta rua miserável e suja e gente feia que a mãe só conseguia pensar na iminência de um assalto. Eu já tava imaginando neguinho jogando pedra no ônibus, que medo. Mundo de merda, né? A gente não consegue dissociar pobreza de violência de aparência.

E eu ando muito fora mesmo... É informação demais em pouco tempo, são muitas mudanças pra uma conservadora ortodoxa como eu. E mais, sabe por onde a minha mente vaga, em meio a ônibus lotados de pirralhos que vomitam carreteiro amarelo? Por Renan (sim!) e todas as lembranças anexas, pelo Suarez, pela parada da Realce, pelas mãos dadas... Como é que não vou pirar desse jeito? Parece uma corrente de coisas perdidas que me puxa dizendo "volte, volte..." E o pior é que ele nem está lá, nem ali, nem aí. Nem quer saber por onde ando, pra onde vou, o que faço, o que escrevo. Aquilo que sempre foi um dos meus maiores medos já parece tão concreto que eu nem sei o que dizer...
O foda é que nem precisa; no vácuo não se ouve nem se diz nada mesmo.









domingo, 5 de setembro de 2010

No fundo da gaveta



Achei dois poemas que um guri me deu na sétima série, foi a única vez que um colega de escola demonstrou interesse por mim, daí o motivo de tê-los guardado por tanto tempo.


"Amizade é quando te conheci / Amor quando te beijei / Paixão quando te amei / Traição nunca farei..."

hahahahahahahahahahaha

Seu nome era Welisson (já começa por aí, né...), era paranaense, jurava que tinha ascendência japonesa, quando na verdade todos viam de longe que seus olhos puxados vinham de sangue bugre, bem como a cor da pele e o tamanho da cabeça. Deram-lhe o apelido de Porongo. Eu era monitora da biblioteca do Borges, ele fingia ser um também. Concorri no Bivaque de Poesia Gaúcha como poetisa, ele como declamador. Foi um fiasco (a performance dele, não a minha poesia, que fique claro). Enfim, nunca pensei em beijá-lo. Ele acabou desistindo, mas quis sair por cima, contou-me do dia pra noite que não gostava mais de mim, e que a prova disso era que ficou com outra guria, não me lembro seu nome, mas o apelido era Muqui. Pensou que eu ficaria magoada. Achei engraçado.

Certo dia, um sábado ou domingo de manhã, minha mãe me mandou comprar alguma coisa no mercadinho, e lá fui eu, com aquela roupa de mendigo que uso em final de semana, uma blusa esgarçada e um corsário verde desbotado, um Havaianas sujo e o cabelo pior que o da vó Leonor quando acorda com o pé esquerdo, estilo punk-sem-gel, sabe? Pois então, dei de cara com o Welisson. Ele olhou pra mim de cima a baixo e só disse duas palavras: "credo, Aline".

Depois disso, nunca mais o vi.





Fat princess

Achei essa pérola na gaveta... Vai dizer, eu sou a mais bonita da foto, apesar da gorduchice. Eram amigos dos meus pais, agora já nem moram mais aqui. Investigando os acontecimentos posteriores com mamãe, o Batista (o coisa linda ali em cima) se separou da Valesca, que entrou em depressão e quase morreu. Tempos depois, eles voltaram, fizeram uma porção de filhos e vivem juntos até hoje. Nunca me esqueço da tia Marisa contando que uma vez o Batista queria comer a bunda da mulher de qualquer jeito, a Valesca apavorada não sabia mais o que fazer pro bonitão desistir da ideia. Quem sabe tenha sido esse o motivo da separação... Tudo culpa de uma bunda, como em O Cheiro do Ralo.

Tô quase terminando de limpar a primeira gaveta do meu roupeiro, sempre tive medo dela, porque é onde guardo algumas lembranças do Renan. O colar de bambu, que fica dentro de uma velha caixinha de música de 1,99, tô pensando seriamente em levar comigo. Não me xinguem, não posso me desfazer dele. Das imagens sim, que as mais fortes a gente guarda no coração. Dos e-mails impressos também...:



"O meu sentimento é tão verdadeiro quanto o seu... Tenha certeza disso!"




hahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahaha














A vida é uma merda, né gente...
A vida é uma merda.