
domingo, 5 de agosto de 2012
Uma gata como a Tutulina tem coisas a ensinar sobre relacionamentos. Pra começar, a Tuti não gosta de ser sufocada, apertada demais, não gosta que a peguem no colo de surpresa. É ela que procura colo quando quer. Dormindo sobre as minhas pernas enquanto digito, ela morde meu braço quando o movo demais. Mas é uma mordida leve, nada que me machuque. Os carinhos são um contrato. Ela é que vem à minha mão, ou consente que eu acaricie sua cabeça, fechando os olhos, contraindo as patas, erguendo a cabeça. E aí dá aquela vontade de apertá-la toda, espremer sua cabecinha entre as mãos, chacoalhá-la, tratá-la como um bebê. Mas Tutulina não é um bebê, é uma gata adulta que preza pela liberdade. Se sente o cheiro de outro gato na minha mão, não quer saber de mim. É egoísta, é gata de árvore, gosta de ficar no alto da janela admirando seu território. Sujou minha parede com suas patinhas onde sobe para vigiar e dormir, acabei por promover esses rastinhos a decoração involuntária. Mas quem diz que gato é bicho desleal nunca teve um bom gato ou nunca foi um bom dono. A Tuti está sempre por perto quando a família se reúne. Se estamos na cozinha, ela sobe numa cadeira para cochilar. Se estamos no pátio, seu lugar é a janela. Não é perfeita, não é bicho de pelúcia. Mas está sempre por perto. E nunca dispensa o agrado de uma boa tigela de leite morno.
quinta-feira, 26 de julho de 2012
Em cada canto do Brasil, há um pouco de racismo e homofobia. Numa das primeiras conversas que tive nas rodas de chimarrão, meu pai ressuscitou uma teoria proveniente do tempo do comércio de escravos, a qual dizia que negros de canela fina eram mais trabalhadores que os de canela grossa. Meu pai, mestiço, acha isso razoável. Considera que alguns negros “não gostam de trabalhar”. Calmamente, dei-lhe alguns exemplos na própria família de brancos que gostavam muito menos. Aliás, comecei por lembrar que não é natural uma pessoa gostar de acordar cedo todos os dias para passar oito horas numa fábrica, façam zero ou quarenta graus. Mas meu pai ainda pensa que a melanina, essa sim, separa os bons peões dos maus.
Hoje, minha mãe perguntou sobre o Dani, queria saber se a família tinha conhecimento da sua homossexualidade. Comentei sobre como ainda era difícil ser gay no Brasil. Falei dos episódios de violência que nunca acabam, dos casais do mesmo sexo são espancados pelas ruas, uma verdadeira barbárie. A mãe relembrou o caso em que pai e filho caminhavam abraçados e foram confundidos com um casal gay e por isso espancados. “Isso sim é absurdo”, disse ela. “Isso sim? Se fosse mesmo um casal gay, a violência se justificaria?”, perguntei. Ela deu uma resposta tão cheia de grunhidos e meias sílabas que eu não seria capaz de reproduzir aqui. Sorri. Ia fazer o quê, socar a mesa, acusá-la inclusive de ir contra o pensamento cristão, o qual diz que se deve “amar o próximo como a si mesmo”? E quem sou eu pra apontar o preconceito alheio, eu, que, em pleno 2012, ainda me pego usando a expressão “serviço de moreno” para designar algo mal feito? Se existe mesmo céu e inferno, vai pro inferno a humanidade inteira.
segunda-feira, 23 de julho de 2012
É madrugada em Portugal. A essas horas, se me faltasse o sono, eu daria uma longa volta pela Baixa, percorrendo a Rua da Sofia, dobrando na Ferreira Borges, atravessando a Rua do Brasil em direção à Ponte Santa Clara, caminhando à margem do Mondego. Tudo tão secular, tudo tão familiar. “Coimbra tem mais encanto na despedida”.
Marca páginas infindáveis (ou mais um post em forma de prato feito)
Em Coimbra, eu não usava o lixo do banheiro. Comecei a me irritar porque só eu me preocupava em esvaziá-lo, se fosse pelos outros, a latinha transbordava e os pedaços de papel sujos ficavam espalhados pelo chão. Foi o cúmulo pra mim. Para não precisar tocar naquela coisa, passei a enrolar meus pedaços de papel muito bem, fazendo bolinhas e acumulando-as numa caixinha dentro da minha parte do armarinho. Voltando pra casa, demorei duas semanas pra parar de i) fazer a meticulosa bolinha de papel higiênico e ii) levantar do vaso e ficar estupefata a procurar uma caixinha alternativa para depositá-la. Achei engraçado.
A comida é um ótimo consolo. Hoje comi o churras do pai, que é o melhor do mundo, claro. Como ele mesmo diz, a carne que ele faz é a que ele gosta mesmo de comer – bem assada e magra. As mulheres da casa aprovam. Divido a cozinha com a mãe, e damos muitas risadas, porque ela nunca consegue realmente abandonar o leme. Mas as suas dicas são preciosas, eu não posso reclamar. Dou muitas risadas escandalosas durante o dia. Acho que tenho uma risada escandalosa especial reservada pra minha família, é o riso da “arriação”, usado para quando, por exemplo, meu pai troca as bolas e diz que enrolou a carne no papel crepom, referindo-se ao celofane.
O resto do pessoal parece estar indo muito bem também. Puxei assunto umas duas vezes com o Welton, mas morreu logo. Ele já está num outro capítulo. Eu dificilmente encerro capítulos; em vez disso, encho-os de marca-páginas e folheio-os e reavivo-os no blog. Com o Carlos ainda converso mais. Está a visitar o pai na Suíça. Sempre a lembrar-me de que lá é tarde, como se eu não percebesse. Ainda não alterei a hora no meu notebook. Ainda não guardei meus livros na estante. É como virar a página deixando no mínimo alguma orelha de burro, porque eu preciso deixar alguma coisa em aberto, porque sim.
O Renan veio me perguntar se eu “estava viva”. Havia meses que não nos falávamos. Conversa Boa Special Edition. E eu acabo de pensar numa comparação criativissíssima: o Renan é quase como um quindim. O quindim é o meu doce favorito, mas é um dos que menos comi na vida. É que tem toda a coisa das gemas e do açúcar, não é compatível com meu metabolismo lento. Mas pra mim, é um prazer precioso comer um quindim. É aquela coisa que eu como fazendo aqueles “huuummm” o tempo todo. O Renan é o meu guri favorito, apesar de eu ter passado pouquíssimo tempo presencialmente com ele. Nunca o comi na vida. Os anos e as circunstâncias mataram o “we were meant to be” e me levaram a concluir que nós provavelmente fomos um acidente causado pela internet. Mas eu amei e ainda amo tanto cada simples minuto passado em sua distante companhia, que não há dieta sentimental que me convença a parar de escrever tanto sobre ele.
segunda-feira, 9 de julho de 2012
domingo, 1 de julho de 2012
quarta-feira, 27 de junho de 2012
Hoje foi dia de me despedir do Sheltom. Disse que não iria ao seu churrasco porque não conseguiria comemorar esse momento, então nos encontramos em frente ao Pingo Doce. Fui com ele à Loja do Cidadão pagar uma conta de luz. Eu estava atrasada pra reunião de formulação do discurso, mas não podia abrir mão daqueles últimos momentos. O Sheltom sempre mexendo o pé quando está sentado, sempre. Sabe aquele gesto de impaciência? Ele é hiperativo. Subimos até a Praça da República, abraçamo-nos em frente ao TAGV. Não é que esse dia chegou? Fiquei lembrando da gente vendo o jogo de Portugal contra Dinamarca no Piazza, ora trabalhando, ora só puxando papo mesmo. Fiz uma tour com ele por Salvador via Google Maps. Em troca, ele visitou os principais pontos de Campo Bão, incluindo a lavoura na frente de casa. Vou sentir falta da sua simplicidade. Entre os amigos e colegas, eu ganhei a justificável alcunha de Aline Nerds (trocadilho com Nardes). Mas quando alguém enxerga outras faces não nerds da Aline Nerds, é tão confortante. Era isso que eu encontrava na companhia e nos abraços do Sheltom. Que foi embora. E hoje Portugal foi eliminado.
terça-feira, 26 de junho de 2012
A Letty e eu fomos encomendar nosso moletom da UC hoje. Preto com o logo da universidade na frente, “Letras” atrás. Tudo bordado em azul-marinho, que é a cor do curso de Letras. Vai ficar bonito. Participei da reunião para a formulação do discurso da cerimônia de encerramento, incluímos algumas críticas construtivas e mencionamos dificuldades iniciais que poderiam ter sido evitadas. Coimbra está “40ºC de febre”, vento quente. Hoje passeei pela baixa e comprei um potinho de Ben & Jerry’s. Tem dessas gordices no Brasil? Enfim, sempre há a Tutti & Frutti em Campo Bom, com seus sorvetes caseiros. Aqui, eles fazem mais sorbet de frutas, e não sorvete, o que também é bom.
Ainda nem cogitei a possibilidade de arrumar as malas. Nem o ataque diário de mosquitinhos me faz querer ir embora. Estou toda empelotada, inclusive no rosto e no pescoço. O Sheltom já está com a cabeça em Salvador. O Carlos já não está por aqui há muito tempo. O Welton foi viajar. Com a Letty é que tenho podido passar mais tempo.
O Renan é uma coisinha que fica doendo às vezes. Eu brigo comigo porque não consigo simplesmente ficar feliz porque ele está feliz, como fazem as mocinhas de novela. Mas as mocinhas de novela sempre têm seus bons sentimentos recompensados com uma volta do galã e um casamento no último capítulo. Eu não levo jeito para mocinha de novela, e não vejo casamento como o melhor fim de capítulo. Preciso aprender a ser mais legal com essa Aline mesquinha que queria vê-lo sozinho já que não consegue esquecê-lo. Que até ignora as penas que provocou quando pensa só nas que sofreu, querendo ressarcimento, querendo mesma moeda, querendo não ser esquecida.

Livros e livros e livros e o que a incomoda é nunca mais ter sido amada de novo. Uma Aline tola, tolíssima! Humana! Como é difícil tolerar essas coisas! Como é difícil aceitar - e amar - a nossa própria vulnerabilidade.
domingo, 24 de junho de 2012
Seu aniversário está como “30 de agosto de 2008”. Não parece ser uma data aleatória. Ou eu é que estou vendo coisas, porque tudo desmoronou no dia 31. Só fiquei pensando se ele acabou por considerar tudo o que a gente viveu como uma grande bosta da qual “renasceu”, tal qual aquele velho depoimento dizia. Que lindo, Aline, você se importando com a sua “posteridade”, como se isso mudasse o fato de que vocês estão a mais de muitos Brasis de distância, e que isso não tem volta.
Tenho um medo terrível desse coquetel de perdas acumuladas que vai aumentar a partir do embarque no Aeroporto da Portela. Não consigo ver o bright side. Estou guardando minha última cartela de Xanax para a viagem.
Bom, a cada dia que passa, somos uma pessoa diferente à que fomos ontem. Não eras já - dantes de ele - diferente a como eras ao chegar a Coimbra? Agora, ao voltar a casa, serás também diferente a quando partiste.
Nada permanece, Line...
O triste é que nem sequer serviria de algo que ficasses lá, de alguma forma, porque de qualquer jeito ele se teria ido.
Numa sozinha coisa não mudarás nunca, ao que parece: sempre terás uma pena de amor pela que estar triste.
Rodrigo, 20/06/2012
Acordei pensando no que o Renan deve ter achado do show do Noel. Deve ter sido foda. Acho que, ao final dessa jornada fora de casa, consegui curar algumas feridas. Agora seria o momento ideal para sermos bons amigos, sem lacunas entre conversas, mas acho que perdi esse direito. Ou tive de perder.
Vi o Facebook dele hoje. Eu sei, eu sei, não devia. Tem uma foto de perfil, sem o terno gigante, na qual ele está tão lindo. E aí eu percebo que, apesar desses anos, apesar de eu ter mudado e crescido, a sensação de vê-lo não mudou. Visualizar uma imagem sua é como ter corrido uma quadra inteira, muito rápido, muitas vezes. Sistema circulatório em alvoroço.
Como bem diz Rodrigo, de qualquer jeito ele se teria ido…
De qualquer jeito ele se teria ido.
terça-feira, 19 de junho de 2012
"ABSURDO
Tornamo-nos esfinges, ainda que falsas, até chegarmos ao ponto de já não sabermos quem somos. Porque, de resto, nós o que somos é esfinges falsas e não sabemos o que somos realmente. O único modo de estarmos de acordo com a vida é estarmos em desacordo com nós próprios. O absurdo é o divino.
Estabelecer teorias, pensando-as paciente e honestamente, só para depois agirmos contra elas - agirmos e justificar as nossas acções com teorias que as condenam. Talhar um caminho na vida, e em seguida agir contrariamente a seguir por esse caminho. Ter todos os gestos e todas as atitudes de qualquer coisa que nem somos, nem pretendemos ser tomados como sendo.
Comprar livros para não os ler; ir a concertos nem para ouvir a música nem para ver quem lá está; dar longos passeios por estar farto de andar e ir passar dias no campo só porque o campo nos aborrece."
Desassossego, 23
"Tenho que escolher o que detesto - ou o sonho, que a minha inteligência odeia, ou a acção, que a minha sensibilidade repugna; ou a acção, para que não nasci, ou o sonho, para que ninguém nasceu.
Resulta que, como detesto ambos, não escolho nenhum; mas, como hei-de, em certa ocasião, ou sonhar ou agir, misturo uma coisa com outra."
Desassossego, 2
"Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido - sem saber porquê. E então, porque o espírito humano tende naturalmente para criticar porque sente, e não porque pensa, a maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus. Pertenço, porém, àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem veem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado. Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como eles, nem aceitei nunca a Humaninade. Considerei que Deus, sendo improvável, poderia ser, podendo pois dever ser adorado; mas que a Humanidade, sendo uma mera ideia biológica, e não significando mais que a espécie animal humana, não era mais digna de adoração do que qualquer outra espécie animal. Este culto da Humanidade, com seus ritos de Liberdade e Igualdade, pareceu-me sempre uma revivescência dos cultos antigos, em que animais eram como deuses, ou os deuses tinham cabeças de animais."
Desassossego, 1
quinta-feira, 14 de junho de 2012
sexta-feira, 8 de junho de 2012
Neste semestre – fim de semestre, porque as aulas já acabaram –, tenho feito coisas que deveriam ter sido parte da minha experiência em Coimbra desde o início. Uma delas é parar mais tempo pra conversar com pessoas de quem gosto, como o Sheltom, o baiano mais fofo do universo com quem me reuni pra estudar nos últimos dois dias. Nós nos conhecemos no dia do meu aniversário, no primeiro semestre, do lado de fora do show do U2, mas eu já tinha vinho demais na cabeça pra conversar direito. Anteontem, relembramos que, na segunda-feira seguinte ao show, aula de semântica, mal nos cumprimentamos – ele concluiu, com razão, que eu era fechada; eu estranhei o fato de ele não vir falar comigo e me fechei mesmo. Naquela época, eu só saía com o Dani pela universidade e fora dela, fiquei amiga do Jones porque ele me viu sozinha na cantina e resolveu me fazer companhia, depois disso começamos a fazer as nossas maravilhosas sessões de cinema com pão de queijo e chimarrão.
Reencontrei o Sheltom no semestre seguinte, convidou-me pra fazer parte do grupo que apresentaria sobre a paisagem dialetal brasileira na Semana Cultural. Ele havia iniciado um namoro à distância com uma colega da sua universidade, e estava poupando dinheiro pra custear a viagem dela a Coimbra. Eles viajaram por boa parte da Europa em dezembro, vi-os algumas vezes pela UC. Achei uma graça porque ela estava sempre com o mesmo casaco vermelho, é claro que não valeria a pena comprar outros se voltaria pra Bahia. Fiz literatura brasileira com ele, mas nos falamos pouco. Foi neste último semestre que nos aproximamos mais, batendo papo entre aulas, partilhando leituras e fazendo desenhos interativos durante a aula de Pessoanos. O Sheltom brinca que é meu “elogiador” oficial. Se eu juntasse todos os portugueses com quem fiquei num só, não seriam capazes de dar um abraço tão carinhoso e sincero como o dele: o Sheltom é uma fonte de calor humano espalhando gentileza por aí. Conversamos sobre nossas dúvidas quanto a rumos de pesquisa, nosso medo de frustração como professores na escola, nossos planos de mestrado, nossa repulsa em relação aos que se fecham na academia e se alienam do mundo real, nossa vontade de intervir na realidade, alargar os caminhos das pessoas, ou de uma pessoa, que seja uma só dentre tantas. E é uma tarefa ingrata, e talvez fracassemos, e talvez mudemos de ideia amanhã, virando mais um par de medíocres vivendo só pra garantir o seu espaço e alimentar o seu ego. Falou-me do seu relacionamento, das idas e vindas e aprendizagens. A Samuele entrou para o meu Hall da Fama das Mulheres de Sorte, juntamente com a Cris, do Renan.
Falta menos de um mês pra eu ficar longe dessa recente amizade calorosa, o Sheltom vai embora antes de julho. Nestes dias em que estudamos juntos, voltei pra casa numa tristeza agoniada que me tirou o sono. Queria levá-lo na mala. Queria que houvesse teletransporte pra Salvador, pra Viçosa, pra São José dos Campos, pra eu poder ver o Sheltom, o Jones, o Welton, a Letty, juntá-los todos, arrastá-los pra minha casa, achar um lugar pra tomarmos cafés e mais cafés, do jeito que aprendemos com os portugueses. Sonhos impossíveis. Sem dúvida, nas batalhas com o tempo e a distância, perdemos todos.
quarta-feira, 6 de junho de 2012
E era mesmo…
Quanto a mim, resumindo esses quase quatro anos, passei de doces e incômodas cotas a cotas zero. Mas não me incomodo tanto com isso quanto antes. A verdade é que poderia ser pior. É como em Menina e Moça, a gente vai se consolando com os desgostos alheios na tentativa de mitigar os nossos.
quinta-feira, 31 de maio de 2012
quarta-feira, 30 de maio de 2012
Encontrei a Luciana no Bar, após dar uma ajudinha pro pobre do Afonso, um angolano que se enveredou por um nível de inglês mais alto que o seu e agora está penando pra tentar passar. A Luciana me fez descobrir o que se quer dizer com “baiana arretada”. Ninguém jamais poderá perceber o real significado desse adjetivo sem ter conhecido uma pessoa como ela. Foi uma das realizadoras da Semana Cultural Brasileira, enfrentou leões, amansou feras e derrotou serpentes até conseguir conquistar um lugar ao sol para todos nós. Conhece meio mundo e mais uns trocentos. Uma vez, tive de acompanhá-la até sua casa, porque ela estava com as minhas anotações de Literatura Brasileira. Comecei às seis da tarde e cheguei em casa à uma da manhã. Em poucas horas, tinha jantado, ido a um concerto, cumprimentado membros da orquestra, participado da festinha no camarim e passado pelo bar da Associação Acadêmica. Essa é a Luciana Arretada.
Jantamos na cantina das pizzas e massas (sim, agora a UC está requintada) com uns colegas queridíssimos da UNESP e da UFSCar. Ficamos a lembrar de todas as peripécias da primeira turma dos PLI, a turma cobaia, a que mais passou por perrengues, a turma das altas aventuras e desventuras. Relembramos a primeira prova da Arnaut, de Literatura Portuguesa, no primeiro semestre, em que quase todo mundo ficou abaixo de dez e se apavorou. Eu tirei doze e ganhei quinze minutos de fama acadêmica. Lembramos do dia em que o Elias fez um pronunciamento cara de pau à turma para que a professora fizesse uma alteração na data da prova, só porque ele já havia comprado passagens pra Barcelona. Lembramos do dia em que a Idelazil veio a Coimbra, e queríamos comê-la viva por tanto atraso das bolsas, e ela era tão baixinha, e todos acabaram rindo ao final da reunião. E a agonia quando o dinheiro não caía, as semanas a fio comendo massa com cebola, arroz com cebola, batata com cebola, sopa de cebola. E antes mesmo de verificarmos que recebêramos, já tinha mensagem de alguém no nosso celular – “estamos ricos!” – e toda a PLIzada disparava para o Jumbo encher suas cestinhas de comida. E o dia em que a Luciana estava na Itália quando ocorreu um terremoto, todos ficaram preocupados, ela não entrava na internet, foi dada como desaparecida por Portugal e Brasil, até que surgiu na aula da Arnaut, tranquilíssima, sem saber o porquê de tanto alvoroço. Risos.
Esses anos foram mesmo arretados.
domingo, 27 de maio de 2012
Updating da busca do Renan no Google: ele foi convocado para prestar concurso público pela Prefeitura do Campus Luiz de Queiroz da USP, no dia primeiro de abril. Seu nome também está no Diário Oficial de São Paulo por outro concurso, mas são tantos nomes e tanto texto em caps e números que não entendi bem o que era. Humpf.
sábado, 19 de maio de 2012
3 dias em Paris
Ok, eu continuo preferindo Londres, tanto que fiz questão de visitá-la mais uma vez antes de partir. Mas sim, Paris tem toda a mágica que dizem e mais um pouco. Foi a primeira viagem que fiz sozinha, estava um pouco assustada, mas deu tudo certo. E em meio a tantos casais apaixonados e pontes com cadeados simbolizando amor eterno, ainda se viam outros solitários como eu, que resolveram se dar ao luxo de ir sofrer um pouco na Cidade Luz.
Ernest Renan sempre me lembrou quem? R: Renan.
Hotel des Invalides
À beira do Sena
A Dama de Ferro
Alô Dan Brown
Mais tarde, descobri que este é o pior jeito de entrar no Louvre. Ao menos é o mais clássico.
Vênus de Milo: um cofrinho cheio de amor
Da janela.
A metros de distância, por detrás de um vidro, vigiada, cercada: é ela.
Notre Dame
Paris é:
Hemingway, Joyce e outros escritorezinhos faziam suas comprinhas aqui.
Crepe de queijo.
Seria a avenida mais famosa do mundo?
Praça Saint-Michel
A Pont Neuf, que ironicamente é a mais velha da cidade, liga na Île de la Cité às margens (não, eu também não sabia que Paris tinha ilha).
Basílica de Sacré Coeur, em Montmartre
Moulin Rouge
Fico devendo a minha paixão, que é Londres. Ainda queria ir pelo menos a Amsterdã e Berlim, mas não sei se o dinheiro chega. O engraçado é que, além da Anne Frank, o motivo pelo qual eu queria tanto conhecer “Amsterdão” é o fato de que o Renan estava planejando lá ir. Como se o ato de pisar num local por ele almejado pudesse nos tornar mais próximos. Coisas de Line.
terça-feira, 24 de abril de 2012
Amanhã é 25 de Abril, feriado em Portugal. É o dia em que ocorreu a Revolução dos Cravos, que depôs a ditatura do Estado Novo em 1974. Chamei o Muitão pra me fazer companhia este final de tarde, nada gratuito, é claro, gatos que se prezem só agem por interesse. Duas fatias de fiambre em troca de sua ilustre presença siamesa enquanto lhe apetecer. Pensei em sair, mas não teria companhia. Meus dois melhores amigos, a Letty e o Welton, são caseiros como eu – talvez por isso sejamos tão amigos –, o Dani há muito sai com outras pessoas que nem conheço. Já saí sozinha por aqui, foi até legal, mas digamos que eu precisaria do dobro de ânimo pra fazê-lo novamente. Pensando pelo lado positivo, amanhã estarei sóbria e descansada pra estudar pra prova de Sintaxe.
O Carlos não tem feito questão de falar comigo, não me chama mais pra almoçar, nem pra estudar. Vi-o hoje de passagem com duas portuguesas. Quem sabe tenha considerado que já é hora de ir se desligando dos brasileiros. Quem sabe o que aconteceu no meu quarto o tenha incomodado e pesado na consciência enquanto passava o fim de semana com a namorada. Talvez eu tenha servido pra reafirmar e renovar sua relação de tantos anos e nem esteja sabendo. Everything in its right place.
segunda-feira, 23 de abril de 2012
O Abraço
Acordei pensando no dia em que Renan e eu nos encontramos, na parada de ônibus em frente à Realce. Era a velha ainda, depois foi modernizada com aquele troço transparente, onde é proibido colar anúncios, e um banco estranho. Antes de esperá-lo, fui passar o tempo na biblioteca municipal – que também ainda estava no lugar antigo, antes de ser transferida pro CEI – e lá fui pesquisar coisas sobre a África subsaariana pro meu trabalho em grupo de Geografia – era o momento mais eletrizante da minha vida e eu não consegui deixar de aproveitar pra fazer o tema!
A loja gospel da frente da parada tocou música alta e fervorosa por um bom tempo. Eu mascando Trident de melancia e renovando o tempo todo o brilho roll-on. Calça de suplex vagabundo, tênis (o melhor que eu tinha) e jaqueta laranja. Um perfume barato da Avon que ele gostou. Uma sombra azul-escura com certeza mal passada, porque eu não sabia esfumar naquela época. O Renan chegou com sua mochila e o moleton vermelho, manga curta por baixo num frio de junho. O cabelo arrepiado, as linhas na testa, as sobrancelhas grossas, os olhos verdes fundos, os poros dilatados. Sério, sério. Foi o abraço mais longo da minha vida. E o beijo também.
E eu nunca mais vivi algo tão intenso e tão verdadeiro como foi aquele dia.
segunda-feira, 16 de abril de 2012
Compondo aforismos
Passei a tarde com o Carlos estudando na Biblioteca Central. Descobri que aquele lugar se estende por uma outra salinha com mais três mesas viradas pras janelas e outras centrais com bancos estofados em veludo azul. Na pausa para um café, antes da nossa tediosa aula de Pessoanos, conversamos sobre as despedidas da vida. “Viajar é perder lugares”, citou ele. Acho que foi o Pessoa que o disse uma vez. E é mesmo, cada lugar visitado é uma perda, porque mal o temos e já o deixamos, uma hora ou outra partimos, perdemos.
Conhecer pessoas é perdê-las, modificou. Também está certo. Perder pessoas é parte da vida. Mas o Carlos, com aquele jeito de aluninho certinho, encasquetou que aquilo não estava bem. Na aula de Pessoanos, observou que deveria ser um verbo só, pra fazer um paralelo com “Viajar”. Sugeri “conviver”. Conviver é perder pessoas. Ficou um paradoxo bonito. A Letty e eu descemos pra Baixa, passamos na Toga, loja de trajes e lembranças acadêmicas, pra ensaiar as compras antes de voltar. E papo de malas, e quilos, e descontos de estudante. Tudo já tão perto.
Chegando em casa, notícias do Carlos por mensagem. “Crescer é perder pessoas. Não parece melhor?”. Descartei suas tentativas e lancei algo mais simples, direto e clichê: Viver é acumular saudades. E uma carinha triste no final. E um medo da volta, do reencaixe. Uma sensação incômoda de imaginar caminhadas sem Mondego, padaria sem pastel de natas, universidade sem maquininha de café de caramelo, e até caminhos sem ladeiras.
“Hoje Coimbra, amanhã saudade.”
domingo, 15 de abril de 2012
Um quase
O Carlos passou o fim de semana em Coimbra e ontem combinamos uma tarde de estudos, filmes, futebol (ele veio sob a condição de pararmos tudo pra vermos seu Benfica na final da Taça da Liga) e janta. Nós costumamos fazer noites de leitura via msn, às vezes ligamos a webcam, eu leio daqui e ele de lá, eu reclamo do sono e ele insiste “vamos lá, vamos ler”, eu cochilo e ele liga pra me acordar.
É claro que eu até cogitei que seria um pouco estranho fazer esse tipo de programa com um cara comprometido, por mais que sejamos apenas amigos. A minha cama de sofá, um drama francês, o escuro e a chuva. Perto demais. Nos agarramos. Foi meio difícil pensar. Mas em meio à carência acumulada, juntei razões pra parar tudo. Somos amigos. Ele é comprometido. Estou voltando pro Brasil. Era melhor não complicar as coisas, nem pro Carlos, nem pra mim. Ele concordou. Acrescentou que mais tarde eu poderia ficar com uma má impressão dele. E, vamos combinar, nós mulheres adoramos fazer isso. O cara tem outra, a gente transa, e se o desfecho não nos favorecer ele será o cachorro. Sei lá se ele já o é, mas isso não muda as coisas pra mim.
Fomos ao jogo e ao meu strogonoff. No estádio aqui de Coimbra, o Benfica venceu a Taça da Liga pela trocentésima vez, embora o Gil Vicente tenha esboçado uma reação. Meu strogonoff e minha agilidade na cozinha receberam elogios (por sinal merecidos). Acho que consigo fazer um strogonoff parecido com o da Deh, que comíamos com massa nas jantinhas. Levei-o à paragem/parada e voltei pra casa. Deslizes esquecidos. E eu fiquei um pouco melancólica, com uma cara de tacho de quem recebe um par de meias de amigo secreto. Voltei pra pegar meu mp3 e dar uma volta pela Baixa. Repreendi-me por não ter levado as coisas adiante, podia ter me autoafirmado tirando uma casquinha do Carlos. Podia mesmo? Acho que não. Só estou com dificuldades em me sentir satisfeita sozinha. Consolo-me com as vantagens de não ganhar bolo de ninguém e não ficar pensando na chegada da menstruação o mês inteiro. Ao mesmo tempo, estou tão grotescamente carente que adoraria pegar o Carlos emprestado só pra dormir comigo e nada mais. E ainda preciso aprender a viver com a falta que o Renan me faz.
Subi a Ladeira de Santa Justa pensando em como o mundo é engraçado, no semestre passado eu mal conversava com o Carlos, e quando sentava perto dele em Literatura Brasileira 1 ficava pensando em como ele era bonito (nem é tanto assim). Meses depois ele tava com a mão na minha coxa. Tudo esquecido. Chegando em casa, ele já estava no msn para lermos. Amanhã combinamos de estudar na biblioteca. E minha implicância com seu subnick chegou ao nível da conformidade debochada em que eu sempre o cumprimento com “hello, world”. Mas para meu desespero, o Carlos agora descobriu os winks e fica me mandando bonequinhos que estouram bexigas e fazem um barulhinho tosco enchendo toda a minha tela. Ah, Renan, como quisiera... Tô ouvindo Jack Johnson e chorando.
quinta-feira, 5 de abril de 2012
O Marcio é um mineiro da Química que, como eu, gosta muito de ficar na internet. Nós nos falamos mais por Twitter que pessoalmente, apesar de termos, neste semestre, uma aula juntos, de Avaliação Educacional. Também fazemos o curso de astronomia toda segunda à noite. Nossa despedida de “até logo” é “até o Twitter”. Na primeira observação astronômica que tivemos, gargalhei madrugada adentro com tantas tiradinhas e trollagens com telescópios.
Tenho um carinho especial por ele porque possui um talento promissor para fazer piadas bestas. O Marcio achou a plateia perfeita, eu achei um modo temporário de repor as sessões de bestice com Renan. Claro que não é a mesma coisa, como não é tão legal falar por msn com o Carlos e seu subnick “hello, world ”, mas é uma forma de alívio. E eles não deixam de ser pessoas ótimas de quem vou sentir falta quando for embora, já que minhas rotinas real e virtual mudarão bastante, e as distâncias também.
quarta-feira, 4 de abril de 2012
Sonhei com Renan. Ele me mandava algum tipo de email com ilustrações que me mostravam o quanto eu era idiota. Era uma história em quadrinhos, ou um esquema, não sei, não lembro. E não lembro das legendas, só da sensação. E que não era o hotmail, era o gmail, e meu notificador o tinha acusado na hora. Considerando a teoria de Freud, para quem um sonho tem sempre escondido um desejo pessoal, mesmo que seja pesadelo, mostra minha vontade de falar com ele, mesmo que não ouvisse coisas agradáveis.
Tive um sonho com ele em Veneza, havia lido A Interpretação dos Sonhos no trem desde Florença, foi minha primeira interpretação, talvez por isso não o esqueça, e pelo conteúdo também. Renan era um militar sisudo (isso ele é mesmo) que comandava, relutantemente, uma operação ao lado da minha casa. Essa operação consistia em manter-me longe dele. Eu chorava horrores querendo, em vão, falar-lhe. Mas os soldados não me deixavam entrar. Dois desejos: i) apesar da militarice, ele estava perto de mim, na casa ao lado; ii) o único empecilho que nos mantia longe era uma operação forçada, muito mais contornável que a distância, que a outra pessoa, que a indiferença.
E Veneza estava fria fria, nublada, linda. Renan estava pairando por aqueles canais com todos os seus ancestrais italianos.
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Passei meu msn pra um colega português chamado Carlos. Ele é simpático, até bonito, mas somos somente amigos. O subnick dele é “Hello, world ”. Que tipo de pessoa dá oi para o mundo? Pessoas como o Carlos. Ele é um dos poucos portugueses mais próximos da gente. Eu praticamente só convivo com brasileiros. O Carlos nos vê como um grande grupo de gente “porreira” (legal). Gosta de jogar aqueles joguinhos de msn. Mostrei a ele o Bowling, que joguei com o Renan uma vez. É claro que não foi tão divertido. E o Carlos começa a se vangloriar sem parar cada vez que a sua média de pontos sobe. E eu digo “ok, Carlos, não nasci para o Bowling”, esperando que chegue logo a hora de ele dizer “vou pra caminha”.
Daqui a uns dias, meu exemplar de The Four-day Win vai chegar. Encontrei-o através de um vídeo de uma menina que usou este método, destinado a dietas, pra parar de se arranhar. A escritora baseia-se no argumento de que os primeiros quatro dias de qualquer resistência são os piores. É o limite ideal pra se atingir um objetivo aos poucos. Ao final dos quatro dias, se a meta foi cumprida, a pessoa deve dar um prêmio a si mesma. É claro que não pode ser algo subversivo, se for dieta, por exemplo, não vale se presentear com um McDonalds depois de quatro dias comendo integrais. Enfim, comprei o livro usado no Amazon por uma mixaria. Mas já vou começar antes da leitura chegar. Mais precisamente, comecei meu primeiro desafio há vinte minutos, e deve durar até dia seis às quatorze horas. Vou me presentear com um batom novo se conseguir.
E não se preocupem, este blog não vai virar uma enxurrada motivacional, não sou dessas, nem se quisesse. Dificilmente isso tudo deixará de ser sobre o período mais emblemático da minha vida. Emblemático? Sim, nunca consegui superá-lo. Talvez esteja começando a aprender a não esperar mais por seus sinais. Talvez. Eu praticamente aposentei meu hotmail, mas às vezes me dá um sobressaltinho ao ver que tem mensagem nova. E se for ele mandando um oi? Mas e se for ele reforçando que não temos nem teremos mais nada? Mas por que raios faria quaisquer das coisas? É óbvio que não, é só mais um email de promoção da La Redoute.
Volto a construir um universo paralelo em que nunca tivéssemos nos conhecido. Nesta realidade alternativa, meu discurso do “ninguém me ama” teria o acréscimo do “ninguém nunca me amou”. Eu provavelmente ainda teria perdido a virgindade com o Elton, pensando que ele tinha sentimentos por mim, porque na primeira precisava sentimentos. Eu ainda teria Orkut só pra rir das comunidades do Victor Ramos. Teria descontado minha adrenalina nervosa do ENEM em algum tipo de comida. Escreveria pra gaveta sobre o desejo irrealizado de sentir-se especial pra um menino, não especial nerd que tira nota 100, mas especial especial. Passaria noites vendo filmes românticos, que neste universo foram banidos dos meus gostos desde 2008. E as minhas risadas de msn não seriam “hueuheuheue” ou “huahuahuahua”.
sábado, 31 de março de 2012
Picking

segunda-feira, 26 de março de 2012
Um Universo

Faço um curso de astronomia toda segunda, no Departamento de Física, das oito às dez e meia. É legal, já sei mais ou menos como se constituiu o Universo – aliás, rigorosamente, não foi com um Big Bang “porque não foi Big nem fez Bang”, como diz nosso professor. Sei que apenas um porcento dele é visível, que boa parte é feita ou de matéria negra ordinária (estrelas mortas, buracos negros, etc.), ou de matéria negra exótica (não se sabe o que é) ou de energia negra (mais de 70%). Sabe-se que há matéria negra porque todos os corpos da galáxia, estejam perto do centro ou na periferia, movem-se na mesma velocidade, logo, há algum tipo de material que promove esse equilíbrio. Além disso, essa matéria invisível manifesta-se gravitacionalmente. Há um halo gigante de matéria escura à volta das galáxias.
Cada galáxia tem aproximadamente 100 bilhões de estrelas, a Via Láctea tem o diâmetro de 100 mil anos-luz (a luz, na sua super velocidade, demoraria 100 mil anos pra atravessá-la de um ponto a outro). Não existe foto da Via Láctea porque o homem nunca conseguiria atingir tal visão panorâmica. No meio dela há um buraco negro relativamente pequenino, incapaz de engolir todo esse monte de corpos ao seu redor. Por outro lado, todas as galáxias são canibais e já engoliram galáxias menores.
Tudo começou quando uma partícula ficou sem antipartícula, ou antimatéria. Sem o seu par negativo, a partícula Forever Alone deu origem ao Universo, que passou a se expandir. Dizem que, em certo momento, ocorrerá a inversão da expansão, o Big Crunch. Mas o mais provável é que o Universo nunca pare de se expandir, seja em velocidade constante, seja em aceleração. O certo é que, de qualquer maneira, tudo isso acabará, mas não estaremos mais aqui pra presenciar este fim.
O Universo não é infinito, o espaço é que é.
O Universo é uma monstruosidade de espaço vazio.
domingo, 25 de março de 2012
Não acredito que ainda o fico vendo lá. Não acredito nessa minha atitude. Eu sou a alegoria perfeita, mais especificamente a parábola perfeita do merecimento do fracasso emocional. Já até considerei que talvez eu goste disso, talvez eu goste de me remoer toda e sentir a garganta pulsando, e a mágoa, e ouvir músicas downers. Ver suas carinhas felizes que não são pra mim. Tadinha? Tadinha o cacete. O mundo nunca pareceu tão equilibrado quanto nesse balanço das minhas atitudes.
E eu consigo ser tão medíocre, e tão mesquinha, a ponto de desejar ardentemente que ele não consiga se desligar de mim. Tenho pensamentos maus como os que eu tinha no ensino fundamental, depois do dia em que tava voltando pra casa e dois caras escrotos me chamaram de baranga. Eu passei uma semana inteira imaginando que pudesse tê-los espancado até ficarem moribundos, deitados no meio-fio. Mas eu me sentia bem com isso. Com o Renan é diferente. Toda vez que o vejo estampado de cara feliz sem mim, e quero que seu pinto caia, e quero que alguém coma sua bunda, e quero que se sinta incompleto e que isso doa, eu me sinto péssima. Eu me sinto uma baranga. Uma miserável. Uma escrota desprezível merecidamente nocauteada no meio-fio.
sábado, 24 de março de 2012
Adrenalina Cultural Brasileira
A apresentação com a Letícia na terça tinha sido tranquila. O tema era a subversão do emblema modernista na primeira obra de Jorge Amado, “O País do Carnaval” (a Semana Cultural Brasileira passou a ter tema, o deste ano é “As Viagens do Carnaval”). O Instituto de Estudos Brasileiros é uma sala não muito grande com uma baita mesa preciosa feita de pau amarelo trazido do Brasil, à volta da qual todos se sentam. Isso já dá um clima confortável, e eu já estava ciente de que a Maria Aparecida, nossa ex-professora de Literatura Brasileira e coordenadora da Semana Cultural, estaria lá com toda a certeza. Tudo certo, elogios, e a princípio ficamos pré-selecionadas pra publicar o artigo.
Mal saí da sala e já tinha planejamento dos slides com o Welton para sexta. Apresentaríamos sobre as influências africanas no léxico carnavalesco. Mas o corpus do trabalho estava meio inconsistente, eu sentia que faltava alguma coisa, só não sabia como arrumar isso, e estávamos em cima da hora. Na noite de quarta pra quinta, estudando pra prova da manhã seguinte, resolvi largar os textos de Análise e Crítica Literárias e buscar soluções. Pensei em ligar pro Welton, mas seria muita maldade fazer isso às três da manhã pra falar de hipóteses. Reli a Margarida Petter. Baixei o Aurélio Eletrônico. Varri listas e listas de vocábulos pra consertar o corpus, 300 do quimbundo, outras 300 do iorubá, mais as de origem africana desconhecida, mais umbundo, quicongo, caralho a quatro. E arruma quadro e reconstrói a metodologia. Cinco da manhã.
Prova feita sem grande desempenho, analisar um trecho do Livro do Desassossego nunca é fácil, e se eu tivesse passado a noite lendo coisas, nem adiantaria nada. Véspera da apresentação, continuação dos slides. “Welton, tu vai me odiar ou me adorar”, brinquei. Expliquei tudo. Ele concordou com as mudanças e terminamos os slides até a tardinha. Esboçamos levemente a apresentação, mas precisávamos formular melhor as falas. Tocamos pra um café com o Leandro até a meia-noite. Eu geralmente escrevo o que vou falar, mas tava tão cansada quando cheguei que nem esbocei nada e deixei tudo pro da seguinte.
Seis da manhã. Soneca. Sete, soneca. Oito, criei vergonha na cara e levantei. Bateu um pânico. Nunca tinha deixado tudo tão pro último dia. Não conseguia desenvolver as falas de frente pro espelho. E ainda precisava formular um glossário caso o pessoal perguntasse sobre o corpus. Replies para o Welton, ajustes dos slides, 11 da manhã e ele foi pra aula. Eu de pijama e pantufa. A nossa mediadora seria a Isabel Pereira, a melhor de Linguística, a minha favorita. E todos os colegas dizendo que estariam lá. A sessão ocorria na segunda metade da aula de fonologia, então muitos dos alunos continuariam por lá. Tínhamos combinado de nos encontrar à 1, mas eu tava paralisada demais pra me vestir, e ainda balbuciava as falas sem muito sucesso. Welton, vou chegar à 1:30. Welton, chego às 2, será que dá tempo? Tô nervosa. Ele também. Melhor era eu ir de vez, que a gente precisava muito ensaiar naquela literalmente última hora. Eu pensando em botar um vestido preto de algodão, que vestido guria, põe essa calça jeans, enfia esse notebook na bolsa e vai! Nem ouvir música no caminho eu ouvi.
O Welton ria de nervoso, e eu perdia algumas palavras. Não fala isso, tira aquilo. Vamos falar tal coisa na conclusão. Eu que costumo ter sempre um papel impresso bonitinho, tava até sem caneta, escrevendo desesperadamente numa folha de caderno, dizendo de novo a última frase – porque a última frase é a mais importante, é a que fecha a apresentação, a que deve ser dita clara e efusivamente –, e já eram três horas, e a Letícia tinha acabado de avisar que a Aparecida tava indo em todas as apresentações, e eu procurando mais informações sobre samba-enredo, porque quando aquela mulher não gosta de uma coisa, o sarcasmo come e todo mundo enfia o rabo entre as pernas.
A nossa apresentação era a segunda de três. A primeira foi a Érika, muito querida, mineira da UFV como o Welton, que falou de neologismos nos sambas-enredo e marchinhas. Os últimos seriam dois PLIs novos cariocas da UFF, com quem fiz latim. A menina é muito querida, mas ele é um arrogante, mal dá oi e quando dá é um resmungo, ou finge que não vê. Fim da apresentação da Érika, chegara a hora. Nem tínhamos nos dado conta de que não precisávamos nos identificar, porque se somos de sexos diferentes, ele não pode ser Aline e eu não poderia ser Welton. Mas tudo bem, segue adiante. A folha de caderno dobrada em cima do tablet – dica de curso de oratória do Dani: se acha que a mão pode tremer, jamais vá para a frente segurando um mero pedaço de papel. Depois, o pessoal brincou que até parecíamos um telejornal. Welton, depois eu, depois Welton de novo, depois eu. Chegou uma hora em que eu tinha uns três slides seguidos, ficou aquele excesso de ar nos pulmões, respira, calma, ok. Agora só faltavam as considerações finais e a última frase, tava tudo ótimo, faltava acertar a frase. Momento chave. “E este trabalho é mais uma forma de mostrar que, se não se pode falar de Carnaval sem falar de samba, também não se pode falar na constituição do Português Brasileiro sem mencionar as influências africanas. Muito obrigada”. Palmas. Ufa.
Subimos o anfiteatro triunfantes. Os terceiros falaram da metáfora conceptual nos sambas-enredo, numa postura bastante formal que a gente tende a dispensar, porque é uma semana cultural e não um colóquio ou congresso. Eu já era parcial antes mesmo de tudo começar, porque não gosto do cara. Tocaram dois sambas-enredo por longo tempo. Faltaram slides. Culparam o notebook da Érika, coitada. Fim da última apresentação. Alguém tinha observações, perguntou a Isabel. A Aparecida se manifestou. Começou com uma contextualização debochada naquele sotaque carioca que ela faz com primor, olhou pra nossa diagonal e pensamos: é agora. Mas foi pra Érika, sobre “barbadinhos” não ser um neologismo. E depois pros últimos, que além de slides comeram letras maiúsculas no PPT (e continuaram culpando a Érika). E a Isabel também discordava quanto a um aspecto do trabalho deles. E nós? Nada. Foi a glória. Até fomos falar com ela depois. Recomendou-nos outros dois dicionários pra aprimorar a lista coletada. Elogios dos colegas. Quatro da tarde. E eu me dei conta de que não havia comido nada desde o dia anterior.
Ainda fui pra aula de literatura, jantei com a Letícia e a Carol antes de voltar pra casa, dormi hoje até a 1 da tarde. Mandei um email pro John contando das apresentações, porque faltei às duas aulas. “Excellent! Aline! The presentations, I mean. I mean, I hope they were excellent. But it's excellent CV experience in any case.” Excelente! O John é efusivo até por email, adoro.
Tô menstruada. Acreditam que eu nem transei com ninguém esse mês e tava preocupada? Sei lá se eu acho que poderia vir a ser uma Não-Virgem-Maria moderna, grávida sem ter dado uma rapidinha sequer. Catei mensagens, fiz contas daqui e dali, e não me convencia. Guria loka. Eu devia sair, já que não tenho mais o Tiago com quem perder meu tempo, mas dá preguiça. Tanto trabalho só pra talvez ter a possibilidade de substituí-lo por outro Tiago. Ou por outro João. “E o Renan?” Olha, deve estar melhor do que eu. Na última tentativa de conversa, só teve desconversa. Ele não pode realmente dividir coisas comigo. Despedi-me e saí do msn, e ele disse que vai morrer sem entender minhas atitudes. Tem mesmo razão. Como lhe seria fácil entender uma guria – com quem ele terminou há anos e que está há um oceano de distância – que, por essas semanas, anda puta, mas putíssima mesmo com ele, só de imaginá-lo ficando velho longe dela?
quarta-feira, 21 de março de 2012
Os tocos que levei
Tanta coisa pra fazer que eu entrei na internet e fiquei. Ainda não terminei as leituras pra prova de amanhã. E depois tem todo o planejamento pra próxima apresentação. Mas a cabeça tá ruim.
A semana mais agitada do semestre começou com um toco estilo saiu-para-comprar-cigarros-e-nunca-mais-voltou. O último dos rolinhos combinou um encontro (sexo meia-boca com estadia, pros leigo). Mas foi só eu ficar pronta que o telefone não tocou mais. Adormeci vendo Breaking Bad, arrumadíssima, perfumadíssima, maquiagem impecável, autoestima zero. E todos os tecidos se encheram de bolinha até o amanhecer.
Mas obviamente não foi a primeira vez que isso aconteceu, uma vez tava me vestindo no banheiro quando o cara ligou e desmarcou. Num convite posterior, usei minha preciosa inteligência e levei duas combinações de roupa pro box, a de sair e a de chinelona, pra caso acontecesse o mesmo. Dito e feito, mas o importante é que dessa vez eu estava prevenida, isso é que é ser mulher post-moderna, sempre pronta para desfechos diferentes. O pior foi uma vez em que um cara mandou a seguinte mensagem quando eu estava saindo de casa: “não venhas, vou dormir”. Trocada pelo sono.
Já levei tocos de todas as cores. Mas quem nunca se sentiu com a buceta mais rejeitável do universo, não é mesmo? Não é a melhor das sensações, mas passa. Só teve um cara que foi realmente legal comigo nesse período, mas eu nunca quis ficar com ele. Pagou-me picanhas e cinemas. Uma vez bebi horrores e lhe disse grosserias de que nem me lembro. Vomitei nele. Acordei e tinha um lanche numa caixinha ao lado da minha cama. E a resposta a toda a minha idiotice foi: “ainda arrasto uma asinha por si”. E nunca quis beijá-lo. E não respondo suas mensagens.
Moral da história: se já fui vítima de escrotos, fui escrota também. Poderia pensar que estaria colhendo os frutos das próprias atitudes para com quem me queria levar a sério, que seria algum tipo de intervenção divina, mas será que o Além se preocuparia com esse tipo de coisa? Poderia também cogitar que as chances de duas pessoas se conhecerem e se gostarem não são tão grandes assim, que essa sorte não é para todos. Esses dias caiu um tweet muito ilustrativo na minha timeline: “A pessoa te ama. A pessoa mora perto. A pessoa é bonita. Escolha duas opções.” (Ela vai falar do Renan em 3…2…1…)
Não, deixa pro próximo post. Chega de tocos por hoje.
terça-feira, 20 de março de 2012
Semana Cultural Brasileira
Trabalho trabalho. Dia todo na UC. Aula. Slides. Ensaio. Artigo. Último ensaio. Apresentação. Palmas. Planejamento da próxima apresentação. Artigo. Slides. Ensaio. Aulas. Prova. Trabalho. UC. Dia todo.
quinta-feira, 15 de março de 2012
Line oblíqua
Fiz tanta coisa hoje que até fiquei triste. E com dor no braço e na bunda. Nisso que dá fazer trabalho em dupla, você não pode procrastinar muito.
Tentei uma sessão de choque de Renan e entrei na sua página do Facebook pra ver se me torturava a ponto de deixar pra lá só por hoje, que já tô downers de cansaço. Não funcionou. É muito maluca essa coisa de rede social. A pessoa ali, numa vitrine azul, num terno gigante, congelada com outra pessoa enquanto eu cavoco o couro cabeludo de agonia comendo chocolate preto. A loka da Line. Sempre procurando as páginas inadequadas e sempre inadequada para a situação. Cara, eu trabalhei arduamente em dois artigos hoje que talvez consigam publicação, e termino o dia arrasada, pensando sobre estar perdendo-o aos pouquinhos, constringindo minha zona de alcance, vendo-o de longe na vitrine azul, e a loka da Line sumindo sumindo, transparente, a loka da Line se entrecruzando com o nada num poema interseccionista que o Pessoa jamais teria a mediocridade de fazer.
domingo, 11 de março de 2012
Ouvindo Elephant Gun porque ninguém está vendo. A música piora nesse refrão de instrumentos de sopro, mas tudo bem. Mudei pra Radiohead. O sono se foi e pelo jeito não tenciona voltar, e são 5 da manhã. E o Dani catou por aí um cara meio escandaloso que solta uns gemidos periodicamente no quarto ao lado, logo a coisa ficou meio difícil. Tô terminando O País do Carnaval. É tanta discussão sobre o sentido da vida e a existência da felicidade que fiquei meio downers. Já não basta o Pessoa lamentando não poder juntar felicidade com racionalidade, invejando o canto da ceifeira, “com sua voz cheia de alegre e anônima viuvez”. Os grandes escritores e pensadores só reforçam que a gente só pode ser feliz em absoluto com um pouco de ignorância, de alienação. Quando a gente se apaixona e esquece o resto da vida, por exemplo. Ou quando projeta a felicidade em algo ou alguém. Ou quando encontra desafogo nas birita e no sexo por umas poucas horas, passando “a esponja da carne sobre o cérebro”, como diz Jorge Amado. Tem também as pessoas que se dedicam incondicionalmente a uma religião. E tem quem constrói a ambição de alcançar a serena indiferença perante tudo e todos, como o Pedro Ticiano, e também fracassa.
É até bonito ver o dia raiar assim, sem precisar sair, podendo voltar pra cama a qualquer momento. Fiz um autêntico frango frito americano ontem, e uma maionese sem ovo com alho, ficou até alho demais, da próxima eu acerto. Almoço de domingo pronto. E acho que hoje ainda vou fazer um bolo. De cenoura. Da Lena. Cada um com seus exercícios favoritos de distração do dilema da busca da felicidade.
sexta-feira, 9 de março de 2012
Nada de mensagens bobas offline, Aline. Ó vida. A vida gosta de ser aquele quadro tosco do Zorra Total (como todos o são) em que o jargão era “isso não te pertence mais…”. Eu acho que é do Zorra, se não for é de uma novela.
Às vezes eu odeio tanto seus gostos, mas é porque gosto e não quero gostar; alguém manda um vídeo do Beirut e eu curto alguns segundos antes de fechar e abafar o crime. Nada que ele estampe em sua página no Facebook me pertence. É uma coisa infantil. Não sou a criatura mais madura da cidade.
Eu sinto saudade dos old times. Como bem diz o Charles, saudade é uma palavra tão portuguesa. Ah, se as coisas fossem mais encaixáveis, se a vida fosse um lego pra brincar de encaixar infinitamente. Eu parava de chorar e encaixava o sono aqui, desencaixava as olheiras dali, montava meu próximo dia na UC com intervalos de comida da mamãe e papos do papai, ajustava uma piada pro molico e depois aumentava a pilha de livros pra ler e estudar. Terminava o dia no sofá do Renan. Vamos assistir ao Chaves. Vamos fazer gordices pra comer. Tenho reclamações de um dia inteiro pra despejar. Preciso de umas dez piadinhas bestas hoje. E preciso de um refri. – O quê, não tem refrigerante? Peraí que já resolvo. E clic, encaixava uma Coca dois litros na geladeira.
