O Carlos passou o fim de semana em Coimbra e ontem combinamos uma tarde de estudos, filmes, futebol (ele veio sob a condição de pararmos tudo pra vermos seu Benfica na final da Taça da Liga) e janta. Nós costumamos fazer noites de leitura via msn, às vezes ligamos a webcam, eu leio daqui e ele de lá, eu reclamo do sono e ele insiste “vamos lá, vamos ler”, eu cochilo e ele liga pra me acordar.
É claro que eu até cogitei que seria um pouco estranho fazer esse tipo de programa com um cara comprometido, por mais que sejamos apenas amigos. A minha cama de sofá, um drama francês, o escuro e a chuva. Perto demais. Nos agarramos. Foi meio difícil pensar. Mas em meio à carência acumulada, juntei razões pra parar tudo. Somos amigos. Ele é comprometido. Estou voltando pro Brasil. Era melhor não complicar as coisas, nem pro Carlos, nem pra mim. Ele concordou. Acrescentou que mais tarde eu poderia ficar com uma má impressão dele. E, vamos combinar, nós mulheres adoramos fazer isso. O cara tem outra, a gente transa, e se o desfecho não nos favorecer ele será o cachorro. Sei lá se ele já o é, mas isso não muda as coisas pra mim.
Fomos ao jogo e ao meu strogonoff. No estádio aqui de Coimbra, o Benfica venceu a Taça da Liga pela trocentésima vez, embora o Gil Vicente tenha esboçado uma reação. Meu strogonoff e minha agilidade na cozinha receberam elogios (por sinal merecidos). Acho que consigo fazer um strogonoff parecido com o da Deh, que comíamos com massa nas jantinhas. Levei-o à paragem/parada e voltei pra casa. Deslizes esquecidos. E eu fiquei um pouco melancólica, com uma cara de tacho de quem recebe um par de meias de amigo secreto. Voltei pra pegar meu mp3 e dar uma volta pela Baixa. Repreendi-me por não ter levado as coisas adiante, podia ter me autoafirmado tirando uma casquinha do Carlos. Podia mesmo? Acho que não. Só estou com dificuldades em me sentir satisfeita sozinha. Consolo-me com as vantagens de não ganhar bolo de ninguém e não ficar pensando na chegada da menstruação o mês inteiro. Ao mesmo tempo, estou tão grotescamente carente que adoraria pegar o Carlos emprestado só pra dormir comigo e nada mais. E ainda preciso aprender a viver com a falta que o Renan me faz.
Subi a Ladeira de Santa Justa pensando em como o mundo é engraçado, no semestre passado eu mal conversava com o Carlos, e quando sentava perto dele em Literatura Brasileira 1 ficava pensando em como ele era bonito (nem é tanto assim). Meses depois ele tava com a mão na minha coxa. Tudo esquecido. Chegando em casa, ele já estava no msn para lermos. Amanhã combinamos de estudar na biblioteca. E minha implicância com seu subnick chegou ao nível da conformidade debochada em que eu sempre o cumprimento com “hello, world”. Mas para meu desespero, o Carlos agora descobriu os winks e fica me mandando bonequinhos que estouram bexigas e fazem um barulhinho tosco enchendo toda a minha tela. Ah, Renan, como quisiera... Tô ouvindo Jack Johnson e chorando.