terça-feira, 24 de abril de 2012

Amanhã é 25 de Abril, feriado em Portugal. É o dia em que ocorreu a Revolução dos Cravos, que depôs a ditatura do Estado Novo em 1974. Chamei o Muitão pra me fazer companhia este final de tarde, nada gratuito, é claro, gatos que se prezem só agem por interesse. Duas fatias de fiambre em troca de sua ilustre presença siamesa enquanto lhe apetecer. Pensei em sair, mas não teria companhia. Meus dois melhores amigos, a Letty e o Welton, são caseiros como eu – talvez por isso sejamos tão amigos –, o Dani há muito sai com outras pessoas que nem conheço. Já saí sozinha por aqui, foi até legal, mas digamos que eu precisaria do dobro de ânimo pra fazê-lo novamente. Pensando pelo lado positivo, amanhã estarei sóbria e descansada pra estudar pra prova de Sintaxe.

O Carlos não tem feito questão de falar comigo, não me chama mais pra almoçar, nem pra estudar. Vi-o hoje de passagem com duas portuguesas. Quem sabe tenha considerado que já é hora de ir se desligando dos brasileiros. Quem sabe o que aconteceu no meu quarto o tenha incomodado e pesado na consciência enquanto passava o fim de semana com a namorada. Talvez eu tenha servido pra reafirmar e renovar sua relação de tantos anos e nem esteja sabendo. Everything in its right place.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

O Abraço

 

Acordei pensando no dia em que Renan e eu nos encontramos, na parada de ônibus em frente à Realce. Era a velha ainda, depois foi modernizada com aquele troço transparente, onde é proibido colar anúncios, e um banco estranho. Antes de esperá-lo, fui passar o tempo na biblioteca municipal – que também ainda estava no lugar antigo, antes de ser transferida pro CEI – e lá fui pesquisar coisas sobre a África subsaariana pro meu trabalho em grupo de Geografia – era o momento mais eletrizante da minha vida e eu não consegui deixar de aproveitar pra fazer o tema!

A loja gospel da frente da parada tocou música alta e fervorosa por um bom tempo. Eu mascando Trident de melancia e renovando o tempo todo o brilho roll-on. Calça de suplex vagabundo, tênis (o melhor que eu tinha) e jaqueta laranja. Um perfume barato da Avon que ele gostou. Uma sombra azul-escura com certeza mal passada, porque eu não sabia esfumar naquela época. O Renan chegou com sua mochila e o moleton vermelho, manga curta por baixo num frio de junho. O cabelo arrepiado, as linhas na testa, as sobrancelhas grossas, os olhos verdes fundos, os poros dilatados. Sério, sério. Foi o abraço mais longo da minha vida. E o beijo também.

E eu nunca mais vivi algo tão intenso e tão verdadeiro como foi aquele dia.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

I miss him so much.

I wish we could meet again someday.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Compondo aforismos

 

Passei a tarde com o Carlos estudando na Biblioteca Central. Descobri que aquele lugar se estende por uma outra salinha com mais três mesas viradas pras janelas e outras centrais com bancos estofados em veludo azul. Na pausa para um café, antes da nossa tediosa aula de Pessoanos, conversamos sobre as despedidas da vida. “Viajar é perder lugares”, citou ele. Acho que foi o Pessoa que o disse uma vez. E é mesmo, cada lugar visitado é uma perda, porque mal o temos e já o deixamos, uma hora ou outra partimos, perdemos.

Conhecer pessoas é perdê-las, modificou. Também está certo. Perder pessoas é parte da vida. Mas o Carlos, com aquele jeito de aluninho certinho, encasquetou que aquilo não estava bem. Na aula de Pessoanos, observou que deveria ser um verbo só, pra fazer um paralelo com “Viajar”. Sugeri “conviver”. Conviver é perder pessoas. Ficou um paradoxo bonito. A Letty e eu descemos pra Baixa, passamos na Toga, loja de trajes e lembranças acadêmicas, pra ensaiar as compras antes de voltar. E papo de malas, e quilos, e descontos de estudante. Tudo já tão perto.

Chegando em casa, notícias do Carlos por mensagem. “Crescer é perder pessoas. Não parece melhor?”. Descartei suas tentativas e lancei algo mais simples, direto e clichê: Viver é acumular saudades. E uma carinha triste no final. E um medo da volta, do reencaixe. Uma sensação incômoda de imaginar caminhadas sem Mondego, padaria sem pastel de natas, universidade sem maquininha de café de caramelo, e até caminhos sem ladeiras.

“Hoje Coimbra, amanhã saudade.”

domingo, 15 de abril de 2012

Um quase

 

O Carlos passou o fim de semana em Coimbra e ontem combinamos uma tarde de estudos, filmes, futebol (ele veio sob a condição de pararmos tudo pra vermos seu Benfica na final da Taça da Liga) e janta. Nós costumamos fazer noites de leitura via msn, às vezes ligamos a webcam, eu leio daqui e ele de lá, eu reclamo do sono e ele insiste “vamos lá, vamos ler”, eu cochilo e ele liga pra me acordar.

É claro que eu até cogitei que seria um pouco estranho fazer esse tipo de programa com um cara comprometido, por mais que sejamos apenas amigos. A minha cama de sofá, um drama francês, o escuro e a chuva. Perto demais. Nos agarramos. Foi meio difícil pensar. Mas em meio à carência acumulada, juntei razões pra parar tudo. Somos amigos. Ele é comprometido. Estou voltando pro Brasil. Era melhor não complicar as coisas, nem pro Carlos, nem pra mim. Ele concordou. Acrescentou que mais tarde eu poderia ficar com uma má impressão dele. E, vamos combinar, nós mulheres adoramos fazer isso. O cara tem outra, a gente transa, e se o desfecho não nos favorecer ele será o cachorro. Sei lá se ele já o é, mas isso não muda as coisas pra mim.

Fomos ao jogo e ao meu strogonoff. No estádio aqui de Coimbra, o Benfica venceu a Taça da Liga pela trocentésima vez, embora o Gil Vicente tenha esboçado uma reação. Meu strogonoff e minha agilidade na cozinha receberam elogios (por sinal merecidos). Acho que consigo fazer um strogonoff parecido com o da Deh, que comíamos com massa nas jantinhas. Levei-o à paragem/parada e voltei pra casa. Deslizes esquecidos. E eu fiquei um pouco melancólica, com uma cara de tacho de quem recebe um par de meias de amigo secreto. Voltei pra pegar meu mp3 e dar uma volta pela Baixa. Repreendi-me por não ter levado as coisas adiante, podia ter me autoafirmado tirando uma casquinha do Carlos. Podia mesmo? Acho que não. Só estou com dificuldades em me sentir satisfeita sozinha. Consolo-me com as vantagens de não ganhar bolo de ninguém e não ficar pensando na chegada da menstruação o mês inteiro. Ao mesmo tempo, estou tão grotescamente carente que adoraria pegar o Carlos emprestado só pra dormir comigo e nada mais. E ainda preciso aprender a viver com a falta que o Renan me faz.

Subi a Ladeira de Santa Justa pensando em como o mundo é engraçado, no semestre passado eu mal conversava com o Carlos, e quando sentava perto dele em Literatura Brasileira 1 ficava pensando em como ele era bonito (nem é tanto assim). Meses depois ele tava com a mão na minha coxa. Tudo esquecido. Chegando em casa, ele já estava no msn para lermos. Amanhã combinamos de estudar na biblioteca. E minha implicância com seu subnick chegou ao nível da conformidade debochada em que eu sempre o cumprimento com “hello, world”. Mas para meu desespero, o Carlos agora descobriu os winks e fica me mandando bonequinhos que estouram bexigas e fazem um barulhinho tosco enchendo toda a minha tela. Ah, Renan, como quisiera... Tô ouvindo Jack Johnson e chorando.

 

segunda-feira, 9 de abril de 2012

 

Um riso de nostalgia: professor Girafales e seu exímio sotaque francês.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

 

O Marcio é um mineiro da Química que, como eu, gosta muito de ficar na internet. Nós nos falamos mais por Twitter que pessoalmente, apesar de termos, neste semestre, uma aula juntos, de Avaliação Educacional. Também fazemos o curso de astronomia toda segunda à noite. Nossa despedida de “até logo” é “até o Twitter”. Na primeira observação astronômica que tivemos, gargalhei madrugada adentro com tantas tiradinhas e trollagens com telescópios.

Tenho um carinho especial por ele porque possui um talento promissor para fazer piadas bestas. O Marcio achou a plateia perfeita, eu achei um modo temporário de repor as sessões de bestice com Renan. Claro que não é a mesma coisa, como não é tão legal falar por msn com o Carlos e seu subnick “hello, world Alegre”, mas é uma forma de alívio. E eles não deixam de ser pessoas ótimas de quem vou sentir falta quando for embora, já que minhas rotinas real e virtual mudarão bastante, e as distâncias também.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

 

Sonhei com Renan. Ele me mandava algum tipo de email com ilustrações que me mostravam o quanto eu era idiota. Era uma história em quadrinhos, ou um esquema, não sei, não lembro. E não lembro das legendas, só da sensação. E que não era o hotmail, era o gmail, e meu notificador o tinha acusado na hora. Considerando a teoria de Freud, para quem um sonho tem sempre escondido um desejo pessoal, mesmo que seja pesadelo, mostra minha vontade de falar com ele, mesmo que não ouvisse coisas agradáveis.

Tive um sonho com ele em Veneza, havia lido A Interpretação dos Sonhos no trem desde Florença, foi minha primeira interpretação, talvez por isso não o esqueça, e pelo conteúdo também. Renan era um militar sisudo (isso ele é mesmo) que comandava, relutantemente, uma operação ao lado da minha casa. Essa operação consistia em manter-me longe dele. Eu chorava horrores querendo, em vão, falar-lhe. Mas os soldados não me deixavam entrar. Dois desejos: i) apesar da militarice, ele estava perto de mim, na casa ao lado; ii) o único empecilho que nos mantia longe era uma operação forçada, muito mais contornável que a distância, que a outra pessoa, que a indiferença.

E Veneza estava fria fria, nublada, linda. Renan estava pairando por aqueles canais com todos os seus ancestrais italianos.

 

              Line versão esquimó

terça-feira, 3 de abril de 2012

 

“Stop missing someone when they’re more happy without you.”

 

 

 

segunda-feira, 2 de abril de 2012

 

Passei meu msn pra um colega português chamado Carlos. Ele é simpático, até bonito, mas somos somente amigos. O subnick dele é “Hello, world Alegre”. Que tipo de pessoa dá oi para o mundo? Pessoas como o Carlos. Ele é um dos poucos portugueses mais próximos da gente. Eu praticamente só convivo com brasileiros. O Carlos nos vê como um grande grupo de gente “porreira” (legal).  Gosta de jogar aqueles joguinhos de msn. Mostrei a ele o Bowling, que joguei com o Renan uma vez. É claro que não foi tão divertido. E o Carlos começa a se vangloriar sem parar cada vez que a sua média de pontos sobe. E eu digo “ok, Carlos, não nasci para o Bowling”, esperando que chegue logo a hora de ele dizer “vou pra caminha”.

Daqui a uns dias, meu exemplar de The Four-day Win vai chegar. Encontrei-o através de um vídeo de uma menina que usou este método, destinado a dietas, pra parar de se arranhar. A escritora baseia-se no argumento de que os primeiros quatro dias de qualquer resistência são os piores. É o limite ideal pra se atingir um objetivo aos poucos. Ao final dos quatro dias, se a meta foi cumprida, a pessoa deve dar um prêmio a si mesma. É claro que não pode ser algo subversivo, se for dieta, por exemplo, não vale se presentear com um McDonalds depois de quatro dias comendo integrais. Enfim, comprei o livro usado no Amazon por uma mixaria. Mas já vou começar antes da leitura chegar. Mais precisamente, comecei meu primeiro desafio há vinte minutos, e deve durar até dia seis às quatorze horas. Vou me presentear com um batom novo se conseguir.

E não se preocupem, este blog não vai virar uma enxurrada motivacional, não sou dessas, nem se quisesse. Dificilmente isso tudo deixará de ser sobre o período mais emblemático da minha vida. Emblemático? Sim, nunca consegui superá-lo. Talvez esteja começando a aprender a não esperar mais por seus sinais. Talvez. Eu praticamente aposentei meu hotmail, mas às vezes me dá um sobressaltinho ao ver que tem mensagem nova. E se for ele mandando um oi? Mas e se for ele reforçando que não temos nem teremos mais nada? Mas por que raios faria quaisquer das coisas? É óbvio que não, é só mais um email de promoção da La Redoute.

Volto a construir um universo paralelo em que nunca tivéssemos nos conhecido. Nesta realidade alternativa, meu discurso do “ninguém me ama” teria o acréscimo do “ninguém nunca me amou”. Eu provavelmente ainda teria perdido a virgindade com o Elton, pensando que ele tinha sentimentos por mim, porque na primeira precisava sentimentos. Eu ainda teria Orkut só pra rir das comunidades do Victor Ramos. Teria descontado minha adrenalina nervosa do ENEM em algum tipo de comida. Escreveria pra gaveta sobre o desejo irrealizado de sentir-se especial pra um menino, não especial nerd que tira nota 100, mas especial especial. Passaria noites vendo filmes românticos, que neste universo foram banidos dos meus gostos desde 2008. E as minhas risadas de msn não seriam “hueuheuheue” ou “huahuahuahua”.