quarta-feira, 27 de junho de 2012
Hoje foi dia de me despedir do Sheltom. Disse que não iria ao seu churrasco porque não conseguiria comemorar esse momento, então nos encontramos em frente ao Pingo Doce. Fui com ele à Loja do Cidadão pagar uma conta de luz. Eu estava atrasada pra reunião de formulação do discurso, mas não podia abrir mão daqueles últimos momentos. O Sheltom sempre mexendo o pé quando está sentado, sempre. Sabe aquele gesto de impaciência? Ele é hiperativo. Subimos até a Praça da República, abraçamo-nos em frente ao TAGV. Não é que esse dia chegou? Fiquei lembrando da gente vendo o jogo de Portugal contra Dinamarca no Piazza, ora trabalhando, ora só puxando papo mesmo. Fiz uma tour com ele por Salvador via Google Maps. Em troca, ele visitou os principais pontos de Campo Bão, incluindo a lavoura na frente de casa. Vou sentir falta da sua simplicidade. Entre os amigos e colegas, eu ganhei a justificável alcunha de Aline Nerds (trocadilho com Nardes). Mas quando alguém enxerga outras faces não nerds da Aline Nerds, é tão confortante. Era isso que eu encontrava na companhia e nos abraços do Sheltom. Que foi embora. E hoje Portugal foi eliminado.
terça-feira, 26 de junho de 2012
A Letty e eu fomos encomendar nosso moletom da UC hoje. Preto com o logo da universidade na frente, “Letras” atrás. Tudo bordado em azul-marinho, que é a cor do curso de Letras. Vai ficar bonito. Participei da reunião para a formulação do discurso da cerimônia de encerramento, incluímos algumas críticas construtivas e mencionamos dificuldades iniciais que poderiam ter sido evitadas. Coimbra está “40ºC de febre”, vento quente. Hoje passeei pela baixa e comprei um potinho de Ben & Jerry’s. Tem dessas gordices no Brasil? Enfim, sempre há a Tutti & Frutti em Campo Bom, com seus sorvetes caseiros. Aqui, eles fazem mais sorbet de frutas, e não sorvete, o que também é bom.
Ainda nem cogitei a possibilidade de arrumar as malas. Nem o ataque diário de mosquitinhos me faz querer ir embora. Estou toda empelotada, inclusive no rosto e no pescoço. O Sheltom já está com a cabeça em Salvador. O Carlos já não está por aqui há muito tempo. O Welton foi viajar. Com a Letty é que tenho podido passar mais tempo.
O Renan é uma coisinha que fica doendo às vezes. Eu brigo comigo porque não consigo simplesmente ficar feliz porque ele está feliz, como fazem as mocinhas de novela. Mas as mocinhas de novela sempre têm seus bons sentimentos recompensados com uma volta do galã e um casamento no último capítulo. Eu não levo jeito para mocinha de novela, e não vejo casamento como o melhor fim de capítulo. Preciso aprender a ser mais legal com essa Aline mesquinha que queria vê-lo sozinho já que não consegue esquecê-lo. Que até ignora as penas que provocou quando pensa só nas que sofreu, querendo ressarcimento, querendo mesma moeda, querendo não ser esquecida.

Livros e livros e livros e o que a incomoda é nunca mais ter sido amada de novo. Uma Aline tola, tolíssima! Humana! Como é difícil tolerar essas coisas! Como é difícil aceitar - e amar - a nossa própria vulnerabilidade.
domingo, 24 de junho de 2012
Seu aniversário está como “30 de agosto de 2008”. Não parece ser uma data aleatória. Ou eu é que estou vendo coisas, porque tudo desmoronou no dia 31. Só fiquei pensando se ele acabou por considerar tudo o que a gente viveu como uma grande bosta da qual “renasceu”, tal qual aquele velho depoimento dizia. Que lindo, Aline, você se importando com a sua “posteridade”, como se isso mudasse o fato de que vocês estão a mais de muitos Brasis de distância, e que isso não tem volta.
Tenho um medo terrível desse coquetel de perdas acumuladas que vai aumentar a partir do embarque no Aeroporto da Portela. Não consigo ver o bright side. Estou guardando minha última cartela de Xanax para a viagem.
Bom, a cada dia que passa, somos uma pessoa diferente à que fomos ontem. Não eras já - dantes de ele - diferente a como eras ao chegar a Coimbra? Agora, ao voltar a casa, serás também diferente a quando partiste.
Nada permanece, Line...
O triste é que nem sequer serviria de algo que ficasses lá, de alguma forma, porque de qualquer jeito ele se teria ido.
Numa sozinha coisa não mudarás nunca, ao que parece: sempre terás uma pena de amor pela que estar triste.
Rodrigo, 20/06/2012
Acordei pensando no que o Renan deve ter achado do show do Noel. Deve ter sido foda. Acho que, ao final dessa jornada fora de casa, consegui curar algumas feridas. Agora seria o momento ideal para sermos bons amigos, sem lacunas entre conversas, mas acho que perdi esse direito. Ou tive de perder.
Vi o Facebook dele hoje. Eu sei, eu sei, não devia. Tem uma foto de perfil, sem o terno gigante, na qual ele está tão lindo. E aí eu percebo que, apesar desses anos, apesar de eu ter mudado e crescido, a sensação de vê-lo não mudou. Visualizar uma imagem sua é como ter corrido uma quadra inteira, muito rápido, muitas vezes. Sistema circulatório em alvoroço.
Como bem diz Rodrigo, de qualquer jeito ele se teria ido…
De qualquer jeito ele se teria ido.
terça-feira, 19 de junho de 2012
"ABSURDO
Tornamo-nos esfinges, ainda que falsas, até chegarmos ao ponto de já não sabermos quem somos. Porque, de resto, nós o que somos é esfinges falsas e não sabemos o que somos realmente. O único modo de estarmos de acordo com a vida é estarmos em desacordo com nós próprios. O absurdo é o divino.
Estabelecer teorias, pensando-as paciente e honestamente, só para depois agirmos contra elas - agirmos e justificar as nossas acções com teorias que as condenam. Talhar um caminho na vida, e em seguida agir contrariamente a seguir por esse caminho. Ter todos os gestos e todas as atitudes de qualquer coisa que nem somos, nem pretendemos ser tomados como sendo.
Comprar livros para não os ler; ir a concertos nem para ouvir a música nem para ver quem lá está; dar longos passeios por estar farto de andar e ir passar dias no campo só porque o campo nos aborrece."
Desassossego, 23
"Tenho que escolher o que detesto - ou o sonho, que a minha inteligência odeia, ou a acção, que a minha sensibilidade repugna; ou a acção, para que não nasci, ou o sonho, para que ninguém nasceu.
Resulta que, como detesto ambos, não escolho nenhum; mas, como hei-de, em certa ocasião, ou sonhar ou agir, misturo uma coisa com outra."
Desassossego, 2
"Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido - sem saber porquê. E então, porque o espírito humano tende naturalmente para criticar porque sente, e não porque pensa, a maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus. Pertenço, porém, àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem veem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado. Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como eles, nem aceitei nunca a Humaninade. Considerei que Deus, sendo improvável, poderia ser, podendo pois dever ser adorado; mas que a Humanidade, sendo uma mera ideia biológica, e não significando mais que a espécie animal humana, não era mais digna de adoração do que qualquer outra espécie animal. Este culto da Humanidade, com seus ritos de Liberdade e Igualdade, pareceu-me sempre uma revivescência dos cultos antigos, em que animais eram como deuses, ou os deuses tinham cabeças de animais."
Desassossego, 1
quinta-feira, 14 de junho de 2012
sexta-feira, 8 de junho de 2012
Neste semestre – fim de semestre, porque as aulas já acabaram –, tenho feito coisas que deveriam ter sido parte da minha experiência em Coimbra desde o início. Uma delas é parar mais tempo pra conversar com pessoas de quem gosto, como o Sheltom, o baiano mais fofo do universo com quem me reuni pra estudar nos últimos dois dias. Nós nos conhecemos no dia do meu aniversário, no primeiro semestre, do lado de fora do show do U2, mas eu já tinha vinho demais na cabeça pra conversar direito. Anteontem, relembramos que, na segunda-feira seguinte ao show, aula de semântica, mal nos cumprimentamos – ele concluiu, com razão, que eu era fechada; eu estranhei o fato de ele não vir falar comigo e me fechei mesmo. Naquela época, eu só saía com o Dani pela universidade e fora dela, fiquei amiga do Jones porque ele me viu sozinha na cantina e resolveu me fazer companhia, depois disso começamos a fazer as nossas maravilhosas sessões de cinema com pão de queijo e chimarrão.
Reencontrei o Sheltom no semestre seguinte, convidou-me pra fazer parte do grupo que apresentaria sobre a paisagem dialetal brasileira na Semana Cultural. Ele havia iniciado um namoro à distância com uma colega da sua universidade, e estava poupando dinheiro pra custear a viagem dela a Coimbra. Eles viajaram por boa parte da Europa em dezembro, vi-os algumas vezes pela UC. Achei uma graça porque ela estava sempre com o mesmo casaco vermelho, é claro que não valeria a pena comprar outros se voltaria pra Bahia. Fiz literatura brasileira com ele, mas nos falamos pouco. Foi neste último semestre que nos aproximamos mais, batendo papo entre aulas, partilhando leituras e fazendo desenhos interativos durante a aula de Pessoanos. O Sheltom brinca que é meu “elogiador” oficial. Se eu juntasse todos os portugueses com quem fiquei num só, não seriam capazes de dar um abraço tão carinhoso e sincero como o dele: o Sheltom é uma fonte de calor humano espalhando gentileza por aí. Conversamos sobre nossas dúvidas quanto a rumos de pesquisa, nosso medo de frustração como professores na escola, nossos planos de mestrado, nossa repulsa em relação aos que se fecham na academia e se alienam do mundo real, nossa vontade de intervir na realidade, alargar os caminhos das pessoas, ou de uma pessoa, que seja uma só dentre tantas. E é uma tarefa ingrata, e talvez fracassemos, e talvez mudemos de ideia amanhã, virando mais um par de medíocres vivendo só pra garantir o seu espaço e alimentar o seu ego. Falou-me do seu relacionamento, das idas e vindas e aprendizagens. A Samuele entrou para o meu Hall da Fama das Mulheres de Sorte, juntamente com a Cris, do Renan.
Falta menos de um mês pra eu ficar longe dessa recente amizade calorosa, o Sheltom vai embora antes de julho. Nestes dias em que estudamos juntos, voltei pra casa numa tristeza agoniada que me tirou o sono. Queria levá-lo na mala. Queria que houvesse teletransporte pra Salvador, pra Viçosa, pra São José dos Campos, pra eu poder ver o Sheltom, o Jones, o Welton, a Letty, juntá-los todos, arrastá-los pra minha casa, achar um lugar pra tomarmos cafés e mais cafés, do jeito que aprendemos com os portugueses. Sonhos impossíveis. Sem dúvida, nas batalhas com o tempo e a distância, perdemos todos.
quarta-feira, 6 de junho de 2012
E era mesmo…
Quanto a mim, resumindo esses quase quatro anos, passei de doces e incômodas cotas a cotas zero. Mas não me incomodo tanto com isso quanto antes. A verdade é que poderia ser pior. É como em Menina e Moça, a gente vai se consolando com os desgostos alheios na tentativa de mitigar os nossos.