terça-feira, 31 de agosto de 2010




"Talvez, com o tempo, acabemos por aprender alguma coisa, pouco importa o que seja. Tudo o que eu desejava era saber como viver. Talvez, aprendendo como viver, acabemos compreendendo o que há realmente no fundo de tudo isso".


(O Sol Também se Levanta, Ernest Hemingway)
















domingo, 22 de agosto de 2010

Triste Gramado

Pois é, eu já previa que o passeio pra Gramado não ia ser lá essas coisas... Acordei de mau-humor - 6 da matina num domingo é foda -, quase pensei em desistir. Mas considerei que a Joice estaria lá, e a gente poderia colocar o papo em dia. Só que aí eu entrei no ônibus e a Joice tava com um alemão do lado, na posição de namorado, e então percebi que a lacuna de papo era muita. Bom, ela nunca quis me contar coisas, por mais que eu o fizesse. Nos nossos encontros, ela aproveitava pra falar disso com a Daniele quando eu ia ao banheiro, restando-me rastros de conversa sem contexto quando eu voltava. Eu não gosto de ser indiscreta, de fazer "cobranças". Ele não me foi apresentado e eu fiquei na minha, não tinha o que dizer, só sei que ficou chato.

Encerrei-me, abrindo-me apenas aos chocolates e ao álcool. Traguei meia garrafa de vinho no café colonial, mamãe não me deixou beber mais que isso. Comprei trocentas guloseimas pra mim, e encontrei mil coisas que gostaria de ganhar de presente. Não sei se sou só eu, mas tenho uma dificuldade enorme pra presentear os outros, contudo sempre acho um monte de coisas que gostaria de receber. A exceção foi da última vez em que fui com o Tio Flávio, trouxe do Lago Negro o globinho do Renan, o globinho em miniatura antiga que nunca pude dar. Dessa vez, trouxe uma coisa pra mim, uma corujinha de madeira pintada em tons de bronze, dei-lhe o nome de Sofia e agora ela sempre vai ficar me olhando ao lado do monitor.

Voltei de Gramado sem vontade de reaparecer por lá tão cedo. Preciso dar um tempo desses passeios cheios de casaizinhos e pirralhos, em que eu sento no pior par de bancos e a certa altura tenho que dividi-lo com a mãe de um pestinha tagarela, porque o guri não aceita ficar no colo e quer sentar num banco mesmo sem ter pago pra isso, a mãe cede e o pai boca-aberta finge que não é com ele, e eu preciso dar um sorriso amarelo e dizer tudo bem. Pior de tudo foi ver o Tio Flávio inventar moda de voltar por uma rota diferente com estradas de chão horrorosas e acabar se perdendo em pleno Vale dos Sinos, entrando numa rua contramão, precisando da ajuda dos passageiros pra reencontrar o caminho e adiando a volta pra casa em mais de uma hora.

Além disso, estou cansada de todas essas associações que surgem na minha mente o tempo todo. Gramado é um masoquismo pra mim, me lembra as coisas que perdi, é como se me faltasse um pedaço do peito. Em meio a cachoeiras de chocolate, senti-me tão desgostosa quanto uma barra vencida, uma barra meio-amarga a qual já derreteu e endureceu tantas vezes que mal se pode reconhecer sua antiga forma. Eu me sinto tão machucada, que nem parece que faz dois anos, e sim dois dias. E reviver essa dor me deixa tão vazia, que mal consigo enxergar as coisas boas da minha vida.










"I saw you at the station, you had your arm around

Whats her name? She had on that scarf I gave you
you got down to tie her laces..."

Robyn





sábado, 21 de agosto de 2010

Na velocidade do pensamento

Às vezes me pergunto se sempre tive um temperamento tão melancólico.
Pondero se quem sabe eu era felizinha até ter que acordar cedo pra ir na creche.
Ou até os guris bullyinzentos da pré-escola me chamarem de gorda-baleia-saco-de-areia.
Ou os da sexta série me chamarem de Dumbo.
Quem sabe foi o dia em que eu mijei nas calças na frente da turma toda, isso!
Foi na pré-escola também...
Não tinha boca pra nada, nem pra dizer que precisava ir ao banheiro durante a visitação à biblioteca municipal.
Até que a minha bexiga não se aguentou.
Quem sabe foi porque a minha primeira redação (no prezinho também, meu ano maldito) tenha sido sobre andar de bicicleta.
E eu nunca aprendi a andar de bicicleta.
Eu era uma fake girl lendo aquele texto pra escola inteira na hora cívica.
Mas o pessoal achou muito lindo porque eu era um prodígio lendo toda aquela cacografia engarranchada.
E até hoje eu nunca entendi o motivo de ter escrito que queria ganhar uma bicicleta no Natal, se não sabia nem pedalar numa motoca.


E nem sei por que comecei a pensar nisso...
Parece um grotesco "Querido Diário, tudo começou quando...".
Faz tempo que passei da fase dos diariozinhos de cadeadinho do 1,99.
Acho que quanto mais eu choro, mais tento rir.
So insane.
Talvez o meu sistema límbico tenha algum tipo de anomalia que produza mais lágrimas e ranho que o normal.
Faria bastante sentido.
Mas lágrima é lágrima, ranho é ranho.
Papai diria que o frio, a fome e o choro são psicológicos.
Hahahahahahahahaha (Ain't it funny).


Não queria ir pra Gramado amanhã, porque estou triste e não quero ver gente.
Não quero nem me depilar, que bom que estamos no inverno.
Será que se eu tivesse mais dinheiro estaria sorrindo?
Por que o Elton é daquele jeito?
Por que o Rodrigo às vezes se parece com a minha mãe?
Por que o Renan não me enxerga mais?...


Talvez seja isso.
"A vida é dura", diria o Lourenço de O Cheiro do Ralo.
Quarta-feira eu vou buscar meu passaporte, vocês acreditam?
Só vou acreditar mesmo quando estiver no avião.
Quem sabe eu pegue tanto frio no rego esse final de ano que o resto todo pareça bobagem.






Fim.



domingo, 15 de agosto de 2010

Contextos de fumaça


Consegui deixar o blog do jeitinho que eu queriaêêê! Só falta a imagem, mas isso é outro dilema. Deixo meus agradecimentos a Rodrigo, que se esforçou em me ajudar com os detalhes, eu realmente não teria conseguido fazer os ajustes sem ele.

Fiquei muito tempo sem vir aqui, né? Nas férias, fiz mil coisas inúteis; na volta às aulas, minha rotina mudou bastante. Preciso fazer três horas e meia de trabalho no escritório se equivalerem a oito horas e meia. Almoço em casa e de tarde pego ônibus lotado até a Unisinos. Tenho gostado de trabalhar no PPG, é super tranquilo, tenho lido muito - em português, inglês e espanhol - e me aventurado em traduções. Quinta à noite, conheci, finalmente, a temida Célia Dóris Becker com sua Poesia Brasileira, e descobri aquilo do qual já desconfiava: muita gente não gosta porque ela faz a gente trabalhar pra caralho, mas a aula, a pessoa e o conhecimento são estupendos.

...E tem mais uma novidade que os leitores já sabem, mas que vou deixar pra comentar mais tarde. Deixa a minha ficha cair que ainda há muita coisa em que pensar, muito o que planejar... Termino contando a última do Elton, que veio me oferecer sua urgência nostálgica semana passada no MSN, e eu, como boa filha, lembrei das palavras de mamãe, e lhe disse que apostava que ele se esqueceria de tudo o que havia dito no dia seguinte. E aí foi só esperar pra ver, como quando a gente contempla um potinho de comida girando no micro-ondas. Não posso negar que me atingiu, não sei lidar com essas coisas, por mais que tenham vindo de um cretino patético baixinho e emocionalmente retardado que nem o Elton. Nessas horas eu sinto raiva dos homens, cego-me às lembranças boas relacionadas, cego-me aos sentimentos e à autora do livro adolescente que encurralava as meninas com a pergunta "se você pudesse apertar um botão que eliminasse todos os garotos da terra, você o faria?". Cego-me até ao que sinto por Renan, a toda a nossa história à parte de todos os contextos, porque no fim das contas ele está mais no contexto de assistir TV a cabo na casa da namorada do que em qualquer contexto em que eu esteja, e eu não posso culpá-lo por sua escolha, mas também não posso atribuir todas as lágrimas ao fato de que hoje expus os olhos por longo tempo à fumaça, tentando, em vão, fazer fogo no fogão de chapa.










(Menção lisonjeadamente honrosa às gurias, que sentiram falta dos meus posts).


(Imagem de Stoffel de Roover).