Em cada canto do Brasil, há um pouco de racismo e homofobia. Numa das primeiras conversas que tive nas rodas de chimarrão, meu pai ressuscitou uma teoria proveniente do tempo do comércio de escravos, a qual dizia que negros de canela fina eram mais trabalhadores que os de canela grossa. Meu pai, mestiço, acha isso razoável. Considera que alguns negros “não gostam de trabalhar”. Calmamente, dei-lhe alguns exemplos na própria família de brancos que gostavam muito menos. Aliás, comecei por lembrar que não é natural uma pessoa gostar de acordar cedo todos os dias para passar oito horas numa fábrica, façam zero ou quarenta graus. Mas meu pai ainda pensa que a melanina, essa sim, separa os bons peões dos maus.
Hoje, minha mãe perguntou sobre o Dani, queria saber se a família tinha conhecimento da sua homossexualidade. Comentei sobre como ainda era difícil ser gay no Brasil. Falei dos episódios de violência que nunca acabam, dos casais do mesmo sexo são espancados pelas ruas, uma verdadeira barbárie. A mãe relembrou o caso em que pai e filho caminhavam abraçados e foram confundidos com um casal gay e por isso espancados. “Isso sim é absurdo”, disse ela. “Isso sim? Se fosse mesmo um casal gay, a violência se justificaria?”, perguntei. Ela deu uma resposta tão cheia de grunhidos e meias sílabas que eu não seria capaz de reproduzir aqui. Sorri. Ia fazer o quê, socar a mesa, acusá-la inclusive de ir contra o pensamento cristão, o qual diz que se deve “amar o próximo como a si mesmo”? E quem sou eu pra apontar o preconceito alheio, eu, que, em pleno 2012, ainda me pego usando a expressão “serviço de moreno” para designar algo mal feito? Se existe mesmo céu e inferno, vai pro inferno a humanidade inteira.
