quinta-feira, 26 de julho de 2012

Em cada canto do Brasil, há um pouco de racismo e homofobia. Numa das primeiras conversas que tive nas rodas de chimarrão, meu pai ressuscitou uma teoria proveniente do tempo do comércio de escravos, a qual dizia que negros de canela fina eram mais trabalhadores que os de canela grossa. Meu pai, mestiço, acha isso razoável. Considera que alguns negros “não gostam de trabalhar”. Calmamente, dei-lhe alguns exemplos na própria família de brancos que gostavam muito menos. Aliás, comecei por lembrar que não é natural uma pessoa gostar de acordar cedo todos os dias para passar oito horas numa fábrica, façam zero ou quarenta graus. Mas meu pai ainda pensa que a melanina, essa sim, separa os bons peões dos maus.

Hoje, minha mãe perguntou sobre o Dani, queria saber se a família tinha conhecimento da sua homossexualidade. Comentei sobre como ainda era difícil ser gay no Brasil. Falei dos episódios de violência que nunca acabam, dos casais do mesmo sexo são espancados pelas ruas, uma verdadeira barbárie. A mãe relembrou o caso em que pai e filho caminhavam abraçados e foram confundidos com um casal gay e por isso espancados. “Isso sim é absurdo”, disse ela. “Isso sim? Se fosse mesmo um casal gay, a violência se justificaria?”, perguntei. Ela deu uma resposta tão cheia de grunhidos e meias sílabas que eu não seria capaz de reproduzir aqui. Sorri. Ia fazer o quê, socar a mesa, acusá-la inclusive de ir contra o pensamento cristão, o qual diz que se deve “amar o próximo como a si mesmo”? E quem sou eu pra apontar o preconceito alheio, eu, que, em pleno 2012, ainda me pego usando a expressão “serviço de moreno” para designar algo mal feito? Se existe mesmo céu e inferno, vai pro inferno a humanidade inteira.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

É madrugada em Portugal. A essas horas, se me faltasse o sono, eu daria uma longa volta pela Baixa, percorrendo a Rua da Sofia, dobrando na Ferreira Borges, atravessando a Rua do Brasil em direção à Ponte Santa Clara, caminhando à margem do Mondego. Tudo tão secular, tudo tão familiar. “Coimbra tem mais encanto na despedida”.

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Marca páginas infindáveis (ou mais um post em forma de prato feito)

 

Em Coimbra, eu não usava o lixo do banheiro. Comecei a me irritar porque só eu me preocupava em esvaziá-lo, se fosse pelos outros, a latinha transbordava e os pedaços de papel sujos ficavam espalhados pelo chão. Foi o cúmulo pra mim. Para não precisar tocar naquela coisa, passei a enrolar meus pedaços de papel muito bem, fazendo bolinhas e acumulando-as numa caixinha dentro da minha parte do armarinho. Voltando pra casa, demorei duas semanas pra parar de i) fazer a meticulosa bolinha de papel higiênico e ii) levantar do vaso e ficar estupefata a procurar uma caixinha alternativa para depositá-la. Achei engraçado.

A comida é um ótimo consolo. Hoje comi o churras do pai, que é o melhor do mundo, claro. Como ele mesmo diz, a carne que ele faz é a que ele gosta mesmo de comer – bem assada e magra. As mulheres da casa aprovam. Divido a cozinha com a mãe, e damos muitas risadas, porque ela nunca consegue realmente abandonar o leme. Mas as suas dicas são preciosas, eu não posso reclamar. Dou muitas risadas escandalosas durante o dia. Acho que tenho uma risada escandalosa especial reservada pra minha família, é o riso da “arriação”, usado para quando, por exemplo, meu pai troca as bolas e diz que enrolou a carne no papel crepom, referindo-se ao celofane.

O resto do pessoal parece estar indo muito bem também. Puxei assunto umas duas vezes com o Welton, mas morreu logo. Ele já está num outro capítulo. Eu dificilmente encerro capítulos; em vez disso, encho-os de marca-páginas e folheio-os e reavivo-os no blog. Com o Carlos ainda converso mais. Está a visitar o pai na Suíça. Sempre a lembrar-me de que lá é tarde, como se eu não percebesse. Ainda não alterei a hora no meu notebook. Ainda não guardei meus livros na estante. É como virar a página deixando no mínimo alguma orelha de burro, porque eu preciso deixar alguma coisa em aberto, porque sim.

O Renan veio me perguntar se eu “estava viva”. Havia meses que não nos falávamos. Conversa Boa Special Edition. E eu acabo de pensar numa comparação criativissíssima: o Renan é quase como um quindim. O quindim é o meu doce favorito, mas é um dos que menos comi na vida. É que tem toda a coisa das gemas e do açúcar, não é compatível com meu metabolismo lento. Mas pra mim, é um prazer precioso comer um quindim. É aquela coisa que eu como fazendo aqueles “huuummm” o tempo todo. O Renan é o meu guri favorito, apesar de eu ter passado pouquíssimo tempo presencialmente com ele. Nunca o comi na vida. Os anos e as circunstâncias mataram o “we were meant to be” e me levaram a concluir que nós provavelmente fomos um acidente causado pela internet. Mas eu amei e ainda amo tanto cada simples minuto passado em sua distante companhia, que não há dieta sentimental que me convença a parar de escrever tanto sobre ele.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

O colar de bambu do Renan a Campo Bom torna. Na caixinha de documentos importantes. Em cima do meu eletrocardiograma.

domingo, 1 de julho de 2012

O Renan e eu conseguíamos chegar a umas abstrações extremas, como cortar o “=)” e usar apenas os olhos “=”. Sinto falta dessas bestices, do besta que me chamava de besta o tempo todo. Era divertido.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

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Hoje foi dia de me despedir do Sheltom. Disse que não iria ao seu churrasco porque não conseguiria comemorar esse momento, então nos encontramos em frente ao Pingo Doce. Fui com ele à Loja do Cidadão pagar uma conta de luz. Eu estava atrasada pra reunião de formulação do discurso, mas não podia abrir mão daqueles últimos momentos. O Sheltom sempre mexendo o pé quando está sentado, sempre. Sabe aquele gesto de impaciência? Ele é hiperativo. Subimos até a Praça da República, abraçamo-nos em frente ao TAGV. Não é que esse dia chegou? Fiquei lembrando da gente vendo o jogo de Portugal contra Dinamarca no Piazza, ora trabalhando, ora só puxando papo mesmo. Fiz uma tour com ele por Salvador via Google Maps. Em troca, ele visitou os principais pontos de Campo Bão, incluindo a lavoura na frente de casa. Vou sentir falta da sua simplicidade. Entre os amigos e colegas, eu ganhei a justificável alcunha de Aline Nerds (trocadilho com Nardes). Mas quando alguém enxerga outras faces não nerds da Aline Nerds, é tão confortante. Era isso que eu encontrava na companhia e nos abraços do Sheltom. Que foi embora. E hoje Portugal foi eliminado.

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terça-feira, 26 de junho de 2012

A Letty e eu fomos encomendar nosso moletom da UC hoje. Preto com o logo da universidade na frente, “Letras” atrás. Tudo bordado em azul-marinho, que é a cor do curso de Letras. Vai ficar bonito. Participei da reunião para a formulação do discurso da cerimônia de encerramento, incluímos algumas críticas construtivas e mencionamos dificuldades iniciais que poderiam ter sido evitadas. Coimbra está “40ºC de febre”, vento quente. Hoje passeei pela baixa e comprei um potinho de Ben & Jerry’s. Tem dessas gordices no Brasil? Enfim, sempre há a Tutti & Frutti em Campo Bom, com seus sorvetes caseiros. Aqui, eles fazem mais sorbet de frutas, e não sorvete, o que também é bom.

Ainda nem cogitei a possibilidade de arrumar as malas. Nem o ataque diário de mosquitinhos me faz querer ir embora. Estou toda empelotada, inclusive no rosto e no pescoço. O Sheltom já está com a cabeça em Salvador. O Carlos já não está por aqui há muito tempo. O Welton foi viajar. Com a Letty é que tenho podido passar mais tempo.

O Renan é uma coisinha que fica doendo às vezes. Eu brigo comigo porque não consigo simplesmente ficar feliz porque ele está feliz, como fazem as mocinhas de novela. Mas as mocinhas de novela sempre têm seus bons sentimentos recompensados com uma volta do galã e um casamento no último capítulo. Eu não levo jeito para mocinha de novela, e não vejo casamento como o melhor fim de capítulo. Preciso aprender a ser mais legal com essa Aline mesquinha que queria vê-lo sozinho já que não consegue esquecê-lo. Que até ignora as penas que provocou quando pensa só nas que sofreu, querendo ressarcimento, querendo mesma moeda, querendo não ser esquecida.

Livros e livros e livros e o que a incomoda é nunca mais ter sido amada de novo. Uma Aline tola, tolíssima! Humana! Como é difícil tolerar essas coisas! Como é difícil aceitar - e amar - a nossa própria vulnerabilidade.

domingo, 24 de junho de 2012

Seu aniversário está como “30 de agosto de 2008”. Não parece ser uma data aleatória. Ou eu é que estou vendo coisas, porque tudo desmoronou no dia 31. Só fiquei pensando se ele acabou por considerar tudo o que a gente viveu como uma grande bosta da qual “renasceu”, tal qual aquele velho depoimento dizia. Que lindo, Aline, você se importando com a sua “posteridade”, como se isso mudasse o fato de que vocês estão a mais de muitos Brasis de distância, e que isso não tem volta.

Tenho um medo terrível desse coquetel de perdas acumuladas que vai aumentar a partir do embarque no Aeroporto da Portela. Não consigo ver o bright side. Estou guardando minha última cartela de Xanax para a viagem.

 

Bom, a cada dia que passa, somos uma pessoa diferente à que fomos ontem. Não eras já - dantes de ele - diferente a como eras ao chegar a Coimbra? Agora, ao voltar a casa, serás também diferente a quando partiste.

Nada permanece, Line...

O triste é que nem sequer serviria de algo que ficasses lá, de alguma forma, porque de qualquer jeito ele se teria ido.

Numa sozinha coisa não mudarás nunca, ao que parece: sempre terás uma pena de amor pela que estar triste.

Rodrigo, 20/06/2012

 

Acordei pensando no que o Renan deve ter achado do show do Noel. Deve ter sido foda. Acho que, ao final dessa jornada fora de casa, consegui curar algumas feridas. Agora seria o momento ideal para sermos bons amigos, sem lacunas entre conversas, mas acho que perdi esse direito. Ou tive de perder.

Vi o Facebook dele hoje. Eu sei, eu sei, não devia. Tem uma foto de perfil, sem o terno gigante, na qual ele está tão lindo. E aí eu percebo que, apesar desses anos, apesar de eu ter mudado e crescido, a sensação de vê-lo não mudou. Visualizar uma imagem sua é como ter corrido uma quadra inteira, muito rápido, muitas vezes. Sistema circulatório em alvoroço.

Como bem diz Rodrigo, de qualquer jeito ele se teria ido…

De qualquer jeito ele se teria ido.

 

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