Uma certeza consolidada ao longo deste intercâmbio: pra descobrir se você realmente tem afinidades com uma pessoa, viaje com ela. Passe cinco, dez dias ao seu lado hospedado num hostel com dez camas por quarto, percorrendo ruas desconhecidas com um mapa da cidade e outro do metro/metrô na mão, fazendo – ou não – planos diários, administrando o espaço do beliche e o da própria malinha de mão nos padrões low cost da tão odiada mas necessária Ryanair: medidas 55x40x20cm, e nada de estufar a bendita, que se não couber nesse compartimento aí embaixo, ou se enfiam mais roupas em algum lugar do corpo ou se pagam quarenta euros de multa.
É claro que de alguma forma se tem de pagar pra viajar pela companhia mais barata do mundo. O preço máximo de uma passagem da Ryanair não chega à metade de um bilhete da Tap pros mesmos destinos. A gente reclama um pouco, no já famoso tonzinho brasileiro “classe média sofre”, mas no final é engraçado. Após a aflição do “ai-meu-deus-será-que-a-minha-mala-vai-caber-no-buraco”, embarca-se ao som de uma música clássica que deve ter o objetivo de acalmar os ávidos passageiros buscando desesperadamente encontrar um lugar pra mala e pro próprio traseiro o mais rápido possível. O avião mal decola e começa a deliciosa sessão de propagandas: lanches, drinks, perfumes, relógios, cremes, cigarros sem fumaça – em três sabores diferentes –, ingressos e bilhetes de loteria com uma percentagem destinada a crianças necessitadas. Mas o melhor mesmo é a musiquinha de aterrissagem e as pessoas batendo palmas por mais uma chegada segura e pontual – afinal, empresas low cost não podem se dar ao luxo de atrasar os voos e pagar multas ao aeroporto. I love Ryanair:
Voltando ao início do raciocínio, os acompanhantes são as engrenagens da aventura toda. É por isso que a minha ida ao Reino Unido foi tão desagradável, apesar do lugar maravilhoso, e até hoje nem vi as fotos direito. A viagem pra Londres foi na base do que eu chamei de turismo militar: visitar pontos turísticos como se fosse obrigação, com tempo contado, com alguém querendo me mandar limpar a bolsa “pra não perder tempo procurando as coisas”, ou determinar o horário em que eu devo tomar banho pra não me atrasar. Tal foi meu espanto e meu desgosto que não tive outra reação a não ser permanecer monossilábica durante a viagem toda, carregando dez quilos numa alça só da bendita mochila, tomando chuva em Dublin porque a pessoa não podia esperar meros cinco minutos debaixo de uma parada até os pingos passarem. Era proibido sentar em algum lugar para apreciar a paisagem, a palavra de ordem era exaustão. Não falo direito com ela até hoje.
(Em tempo: não viaje de mochila se você não for uma pessoa extremamente mulambenta básica, este é o princípio fundamental dos mochileiros. Se você for um mínimo limpinha fresca, vai levar roupa demais até arrebentar ou a alça da mochila, como eu, ou as costas, como a Lívia. Mesmo que seja uma malinha low cost, terá rodinhas maravilhosas que facilitarão o transporte. Perambular de mochilão com roupa de explorador que faz safári na África não é pra todo mundo.)
Toda essa reclamação – que o Renan ouviu mil vezes aos risos quando voltei de Glasgow – é pra contar o maravilhoso contrário de Barcelona. O Dani já é amigo desde o início, e a outra companhia foi uma doidinha mineira chamada Lívia, que está em Coimbra de Erasmus e vai embora em fevereiro. Pra melhorar, uma conhecida que estava no mesmo hostel acabou virando inimiga em comum, e não há nada mais prático pra unir pessoas do que um bom antagonismo. Já tendo esclarecido que o melhor dos paraísos pode ser arruinado por convivências mal sucedidas, afirmo o óbvio – Barcelona é linda pra caralho.
Pegamos o Aerobus até o centro, na Plaza Catalunya, chegamos ao Hostel perto do meio-dia. O Dani e a Lívia conseguiram dormir até a noite, mas eu não tenho facilidade pra ficar na cama de dia desde os tempos de creche, então resolvi dar uma perambulada pelas Ramblas até dobrar no mercado La Boquería. Quis dar uma de chique e comprar um chocolatinho sem perguntar o preço, deduzindo que seria no máximo dois euros. Tomei no rego e tive que desembolsar o dobro.
No dia seguinte, o Dani quis dormir mais e a Lívia e eu saímos pra explorar a região da plaza Espanya. É possível subir nas Arenas, um centro de compras, e ter uma vista panorâmica. Só faltou tirar foto da paella de pollo deliciosa que comemos na volta, com dois litros da melhor sangria que já bebi.
O terceiro dia foi a vez de andarmos de teleférico até o Castelo de Monjuïc e percorrermos o litoral, terminando a caminhada num bar da Barceloneta onde comemos um pão seco com salsicha e cebola com status de hot dog por 5 euros.
Tinha descartado o Museu Erótico do plano, porque quase todas as resenhas eram negativas, dizendo que não correspondia às expectativas. A Lívia achou uma solução simples: “vamos entrar sem expectativas”. Ganhamos um descontinho por sermos brasileiras tal qual as funcionárias, e como visitantes recebemos um copinho de champagne. Realmente, o acervo não é grande coisa, mesmo pra quem tentou não esperar algo muito singular.
A Sagrada Família é um dos maiores cartões postais de Barcelona. É claro que ela tinha de estar em obras, é como quando pobre resolve ir pra praia e chove, mas ainda assim a vista não deixou de ser impressionante.
Nessa noite eu perdi as contas da vodka no hostel e paguei caro, passei metade do dia seguinte vomitando como não me acontecia desde a mistura de vinho com vodka e sprite numa das memoráveis jantinhas da galera da recepção. Não havendo injeção de Plasil, tomei foi soro mesmo, aquele com gosto horrível que nem o melhor aroma de laranja melhora, mas ao menos fiquei boa à tardinha pra irmos ao Parque Güell, outro must-see da cidade. O cair da noite dificultou a apreciação de tantos detalhes, mas a vista compensou e muito:
Sobre festas: pra não dizer que não fui a nenhuma, fiquei umas poucas horas num lugar chamado Arena Vip, no dia 24, uma balada gay bem animada. A Lívia não foi porque estava cansada, e a nossa futura antagonista estava na rodinha com outras pessoas que não conheço muito bem. E se o santo não bate, ou a gente bebe mais ou vai pra casa. Quando qualquer drink custa no mínimo dez euros, a gente vai pra casa.
Pegamos o avião pro Porto às onze, dormimos lá uma noite pra não precisar voltar de madrugada pra casa. Aproveitei pra comprar uns postais alternativos num lugar chamado A Vida Portuguesa, que tem vários objetos autênticos e souvenires na onda dos produtos vintage, e dá vontade de levar metade da loja. “Sabendo que era impossível”, gastei três euros e vim embora. Ainda tirei uma fotografia da Lello & Irmão, considerada pelo Guardian em 2008 a terceira livraria mais bonita do mundo. O Porto parece mesmo gostar de rankings: lá também tem o café Majestic, considerado o sexto mais bonito do mundo; e é a cidade da francesinha, que está entre os dez melhores sanduíches do mundo (ainda não comi pra dar minha opinião abalizada). Parece que algumas cenas de um dos filmes do Harry Potter foram filmadas na Lello & Irmão, mas não encontrei demais informações, e não assisti a nenhum dos filmes. Na época em que estaria mais suscetível a gostar dessas histórias, meus pais consideravam-nas coisa do diabo, então eu deixei pra lá, e um ano depois virei fã de AC/DC. Fotos do interior são encontradas no Google, no momento é proibido fotografar dentro da livraria. E as imagens da internet estão muito mais bonitas que a visão real.
Voltei pra minha bagunça coimbrã ontem à noite, e ainda não tive coragem de desfazer a mala. Passarei o Reveillón aqui, por motivos financeiros. Talvez faça uma lentilha, não pela tradição mas porque é gostoso mesmo. Não dou bola pra essa data, nunca passei ano novo de branco, ano passado virei o dia 31 assistindo a The Walking Dead e ouvindo os portugueses batendo panelas à meia-noite. Se o sucesso de cada um fosse apenas uma questão de fazer meia dúzia de rituais a cada 365 dias, as coisas seriam mesmo fáceis. Um rito que eu toparia fazer era aquele banho de pipoca do nordeste, mas porque acho a ideia engraçadíssima. E porque gosto de pipoca.
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