Neste semestre – fim de semestre, porque as aulas já acabaram –, tenho feito coisas que deveriam ter sido parte da minha experiência em Coimbra desde o início. Uma delas é parar mais tempo pra conversar com pessoas de quem gosto, como o Sheltom, o baiano mais fofo do universo com quem me reuni pra estudar nos últimos dois dias. Nós nos conhecemos no dia do meu aniversário, no primeiro semestre, do lado de fora do show do U2, mas eu já tinha vinho demais na cabeça pra conversar direito. Anteontem, relembramos que, na segunda-feira seguinte ao show, aula de semântica, mal nos cumprimentamos – ele concluiu, com razão, que eu era fechada; eu estranhei o fato de ele não vir falar comigo e me fechei mesmo. Naquela época, eu só saía com o Dani pela universidade e fora dela, fiquei amiga do Jones porque ele me viu sozinha na cantina e resolveu me fazer companhia, depois disso começamos a fazer as nossas maravilhosas sessões de cinema com pão de queijo e chimarrão.
Reencontrei o Sheltom no semestre seguinte, convidou-me pra fazer parte do grupo que apresentaria sobre a paisagem dialetal brasileira na Semana Cultural. Ele havia iniciado um namoro à distância com uma colega da sua universidade, e estava poupando dinheiro pra custear a viagem dela a Coimbra. Eles viajaram por boa parte da Europa em dezembro, vi-os algumas vezes pela UC. Achei uma graça porque ela estava sempre com o mesmo casaco vermelho, é claro que não valeria a pena comprar outros se voltaria pra Bahia. Fiz literatura brasileira com ele, mas nos falamos pouco. Foi neste último semestre que nos aproximamos mais, batendo papo entre aulas, partilhando leituras e fazendo desenhos interativos durante a aula de Pessoanos. O Sheltom brinca que é meu “elogiador” oficial. Se eu juntasse todos os portugueses com quem fiquei num só, não seriam capazes de dar um abraço tão carinhoso e sincero como o dele: o Sheltom é uma fonte de calor humano espalhando gentileza por aí. Conversamos sobre nossas dúvidas quanto a rumos de pesquisa, nosso medo de frustração como professores na escola, nossos planos de mestrado, nossa repulsa em relação aos que se fecham na academia e se alienam do mundo real, nossa vontade de intervir na realidade, alargar os caminhos das pessoas, ou de uma pessoa, que seja uma só dentre tantas. E é uma tarefa ingrata, e talvez fracassemos, e talvez mudemos de ideia amanhã, virando mais um par de medíocres vivendo só pra garantir o seu espaço e alimentar o seu ego. Falou-me do seu relacionamento, das idas e vindas e aprendizagens. A Samuele entrou para o meu Hall da Fama das Mulheres de Sorte, juntamente com a Cris, do Renan.
Falta menos de um mês pra eu ficar longe dessa recente amizade calorosa, o Sheltom vai embora antes de julho. Nestes dias em que estudamos juntos, voltei pra casa numa tristeza agoniada que me tirou o sono. Queria levá-lo na mala. Queria que houvesse teletransporte pra Salvador, pra Viçosa, pra São José dos Campos, pra eu poder ver o Sheltom, o Jones, o Welton, a Letty, juntá-los todos, arrastá-los pra minha casa, achar um lugar pra tomarmos cafés e mais cafés, do jeito que aprendemos com os portugueses. Sonhos impossíveis. Sem dúvida, nas batalhas com o tempo e a distância, perdemos todos.
"nas batalhas com o tempo e a distância, perdemos todos."
ResponderExcluirsdds orkut.
Olhar o tempo passado e lamentar-se pelo que se perdeu, está bem para os velhos, creio...
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