quinta-feira, 15 de março de 2012

Line oblíqua

 

Fiz tanta coisa hoje que até fiquei triste. E com dor no braço e na bunda. Nisso que dá fazer trabalho em dupla, você não pode procrastinar muito.

Tentei uma sessão de choque de Renan e entrei na sua página do Facebook pra ver se me torturava a ponto de deixar pra lá só por hoje, que já tô downers de cansaço. Não funcionou. É muito maluca essa coisa de rede social. A pessoa ali, numa vitrine azul, num terno gigante, congelada com outra pessoa enquanto eu cavoco o couro cabeludo de agonia comendo chocolate preto. A loka da Line. Sempre procurando as páginas inadequadas e sempre inadequada para a situação. Cara, eu trabalhei arduamente em dois artigos hoje que talvez consigam publicação, e termino o dia arrasada, pensando sobre estar perdendo-o aos pouquinhos, constringindo minha zona de alcance, vendo-o de longe na vitrine azul, e a loka da Line sumindo sumindo, transparente, a loka da Line se entrecruzando com o nada num poema interseccionista que o Pessoa jamais teria a mediocridade de fazer.

domingo, 11 de março de 2012

 

Ouvindo Elephant Gun porque ninguém está vendo. A música piora nesse refrão de instrumentos de sopro, mas tudo bem. Mudei pra Radiohead. O sono se foi e pelo jeito não tenciona voltar, e são 5 da manhã. E o Dani catou por aí um cara meio escandaloso que solta uns gemidos periodicamente no quarto ao lado, logo a coisa ficou meio difícil. Tô terminando O País do Carnaval. É tanta discussão sobre o sentido da vida e a existência da felicidade que fiquei meio downers. Já não basta o Pessoa lamentando não poder juntar felicidade com racionalidade, invejando o canto da ceifeira, “com sua voz cheia de alegre e anônima viuvez”. Os grandes escritores e pensadores só reforçam que a gente só pode ser feliz em absoluto com um pouco de ignorância, de alienação. Quando a gente se apaixona e esquece o resto da vida, por exemplo. Ou quando projeta a felicidade em algo ou alguém. Ou quando encontra desafogo nas birita e no sexo por umas poucas horas, passando “a esponja da carne sobre o cérebro”, como diz Jorge Amado. Tem também as pessoas que se dedicam incondicionalmente a uma religião. E tem quem constrói a ambição de alcançar a serena indiferença perante tudo e todos, como o Pedro Ticiano, e também fracassa.

É até bonito ver o dia raiar assim, sem precisar sair, podendo voltar pra cama a qualquer momento. Fiz um autêntico frango frito americano ontem, e uma maionese sem ovo com alho, ficou até alho demais, da próxima eu acerto. Almoço de domingo pronto. E acho que hoje ainda vou fazer um bolo. De cenoura. Da Lena. Cada um com seus exercícios favoritos de distração do dilema da busca da felicidade.

sexta-feira, 9 de março de 2012

 

Nada de mensagens bobas offline, Aline. Ó vida. A vida gosta de ser aquele quadro tosco do Zorra Total (como todos o são) em que o jargão era “isso não te pertence mais…”. Eu acho que é do Zorra, se não for é de uma novela.

Às vezes eu odeio tanto seus gostos, mas é porque gosto e não quero gostar; alguém manda um vídeo do Beirut e eu curto alguns segundos antes de fechar e abafar o crime. Nada que ele estampe em sua página no Facebook me pertence. É uma coisa infantil. Não sou a criatura mais madura da cidade.

Eu sinto saudade dos old times. Como bem diz o Charles, saudade é uma palavra tão portuguesa. Ah, se as coisas fossem mais encaixáveis, se a vida fosse um lego pra brincar de encaixar infinitamente. Eu parava de chorar e encaixava o sono aqui, desencaixava as olheiras dali, montava meu próximo dia na UC com intervalos de comida da mamãe e papos do papai, ajustava uma piada pro molico e depois aumentava a pilha de livros pra ler e estudar. Terminava o dia no sofá do Renan. Vamos assistir ao Chaves. Vamos fazer gordices pra comer. Tenho reclamações de um dia inteiro pra despejar. Preciso de umas dez piadinhas bestas hoje. E preciso de um refri. – O quê, não tem refrigerante? Peraí que já resolvo. E clic, encaixava uma Coca dois litros na geladeira.

domingo, 4 de março de 2012

 

Renan apareceu. Nós falamos sobre comida, gostos musicais que não batem, últimas notícias do futebol. Será que este é o ponto de equilíbrio? Toda vez que sentir saudades e vontade de expressá-las, jogar uma pergunta culinária? – Gosta de bergamota? Gosta de milho? Gosta de Ki-Suco? Gosta de pão com mortadela? – Talvez eu até passe melhor assim. Ou é só uma questão de me habituar, sei lá.

As aulas estão boas. Meus dois projetos pra Semana Cultural Brasileira, feitos em dupla, foram aprovados. Isso significa mais trabalho, mais escrita, mais motivo pra ficar com os cabelos pela grama como a Paula Toller só que sem a parte da grama, mais nervosismo com duas apresentações de vinte minutos pra planejar. Isso é sofrimento. E pensar que eu quero algo assim pra minha vida. Isso é Pathos.

Acho que se um dia eu fizer uma tatuagem, vou tatuar Pathos. Em algum lugar menos no lombo e nos meus bracinhos gorduchinhos. Puxando a semântica, pra mim isso é a essência de todo ser vivo dotado do traço [+humano]. À parte, é claro, daquilo que filósofos como Vygotsky asseguram, dizendo que essência não existe blábláblá (nunca li nem reli eu só ouço falar).

E o que temos para conclusão? O Renan vai ao show do Noel em maio. E parou de tomar refrigerante. Cada um com seus tiques, ruim mesmo seria se ele virasse vegetariano ou, pior, vegano. Eu não teria essa capacidade. Minha relação com a comida fica pelas fronteiras de uma food addiction. Pra vocês terem uma ideia, estou imaginando há meses o momento de chegar em Campo Bom e pedir um xis-salada-sem-tomate do Adelmo com coca, um crepe da barraquinha de crepe do centro, uma panqueca da vovó, cinco churros da tia do churros, muito sorvete do bufê da Tutti-Frutti, o churras e os bolinhos de milho do meu pai todas as comidas e sobremesas da minha mãe. Que Deus me ajude.

 

 

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Blog Potato

 

Sempre esqueço de abrir a janela, quando o ar já está com falta de ar é que me dou conta. E está difícil de se locomover no meu quarto da metade pra trás – “Messy girls make awesome lovers”, diz Patrick Jane. Tenho lá minhas dúvidas. E hoje não sei se sai arrumação, a preguiça é tanta, só não tenho preguiça de comer. As roupas estão secas no varal improvisado há uma semana, as do varal de roldanas lá fora também. Quando chover eu recolho. Isto vale pras de fora, que as do quarto vou usando até o limpo ficar sujo e empilhado no cesto cinza do canto do quarto. A rotina é bela.

Está tudo atrasado. As pastas têm etiquetas do semestre passado. Só uso uma, onde estão todas as minhas anotações de todas as cadeiras, sem nenhuma ordem. Nos primeiros dias de aula ainda esqueci de levar qualquer papel, usei notinhas fiscais para anotações. Cheguei ao cúmulo de discretamente surrupiar papéis dos murais da FLUC pra usar de rascunho, que a aula começava dali a 5 minutos e eu esquecera tudo de novo. É claro que houve critério, não removi nenhuma divulgação de congresso ou de grupos de pesquisa, inclusive um dos arrancados era um aviso escrito em mal português de um pobre estrangeiro querendo companhia pra correr na beira do Mondego. Querido, ninguém das letrocas ia querer lhe fazer companhia, 90% da nossa turminha é couch potato, bed potato, library potato, bookstore potato. Possuímos uma aura esquizoide dentro de nós que nos fez adquirir o hábito da leitura bem mais cedo que os outros coleguinhas, o que nos tornava chatos perante o grande grupo. E mais da metade de nós ousava corrigir os erros de português da avó! Muitos de nosso bando, em algum momento da vida, já consideraram justo que lhe atribuíssem o título de Rei ou Rainha da Língua Portuguesa! E por mais que tenhamos aprendido, como poucos, a respeitar todas as variações diatópicas, diastráticas e diafásicas, os usos incompetentes da língua nos doem! Ou nos despertam ridículos ataques de riso! (Ou também poderiam nos proporcionar algum misto de paixão com ternura com obsessão com ânsia de docência, caso o falante em questão fosse bonito). Não, meu caro colega que teve o aviso por mim surrupiado para fins de prática acadêmica, ninguém da FLUC ia querer correr com você no Mondego. Mas se fosse um pedido de revisão desse seu recadinho, aposto que a coisa já teria se resolvido.

O Renan deve estar de férias. “Dia 23, acho”, ele dizia. Engraçado que perguntei duas vezes, porque a minha memória é triste, e a resposta tinha exatamente os mesmos caracteres – “Dia 23, acho”. E não, eu não ia passar um post sem falar dele. Ainda mais nesse ócio forjado (porque teria tarefas pra fazer pelo resto do fim de semana se quisesse), em que não faço nada além de desfrutar dos meus últimos pedacinhos de chocolate amargo com muito chá preto, chá de maçã, chá de cidreira, all day and all night. Será que ele vai pra praia torrar seus poros dilatados? Feliz acompanhado ouvindo Jack Johnson? Ele gosta de praia. E ele anda sempre tão sério, parece que tem um raio de sol batendo eternamente naquela cara bonita com a testa franzida. Eu não gosto de praia. E eu não sei como terminar este post… Se fosse o Pessoa, dava uma daquelas voltas de últimos versos, pá, um tiro no entendimento do leitor. Eu basicamente escrevo pra falar das mesmas saudades de sempre. Todos os posts levam ao mesmo ponto. É o prazer do reencontro dos romances policiais misturado com o desafogo dos românticos. Eu escrevo sobre o Renan há anos! Muito antes de haver blog. Escrevia numa agenda do Smilinguido com caneta fina de retroprojetor. É a gaveta verde da Line.            Too much love.

 

 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Retardos

 

Volta às aulas, entrando no ritmo, mas bem devagar. Fora das salas de aula ou anfiteatros eu fico dentro da minha cabeça, de onde a vista é triste, o tempo é seco, a programação é downers. Aí volto pra Ratos e Homens que o Jones me emprestou, daqui a pouco acaba, porque a história é tão picorrucha, e o Lennie tão retardado, o Lennie vai matar a mulher do patrão por acidente e acabar assassinado pelo seu melhor amigo na última página.

De repente paro e executo meu ritual diário de comer um pouco de pele dos dedos. A programação recomeça. Hoje mostraremos aos telespectadores os poros dilatados do rosto de Renan. Ele tem poros grandes perto do nariz. As imagens são transmitidas ao som de Shiver. A tela aumenta, o volume também. E eu perco o controle remoto.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

 

Quanto mais penso nisso, mais sinto a perda. E é claro que não consigo pensar noutra coisa. Tenho os piores sonhos acordada, verdadeiros daymares, em que o Renan me encontra em algum lugar do planeta e não me reconhece. Ou pior, dá uma de Genoveva do Machado e me convida para entrar, na maior felicidade simples, explicando que de repente amanheceu gostando de me ignorar.

Eu gostava de lhe contar coisas banais como “fiz purê de batata” ou “comprei uma pasta de alho” e aguardar os feedbacks criativos. Gostava de ver os vídeos que ele mandava e opinar com “legalzinho”, por mais que eu gostasse de alguns até, mas implicar era mais saboroso. E adorava suas tiradinhas bestas de um cérebro serelepe sempre a me contrariar. E o “Guria”? Eu era “A Guria”. Talvez eu tenha exagerado na demonstração de sentimentos nos últimos dias e por isso ele se foi. Talvez ele só tenha enchido o saco, porque sou tão romanticoide às vezes, tudo estaria bem se eu fosse melhor resolvida comigo mesma.

E olha só se eu não estou de novo bolar teorias! Aline querida, você odiaria quaisquer justificativas, quaisquer, todas doeriam do mesmo jeito! Imaginem-me agora com rosas verdes na mão ajoelhada dizendo “volte, volte”. Aos prantos! E ranho melecando as cobertas. E o meu nariz sangrando de novo.

Páthos, pathétikós.

Volte, volte :(

 

Também entrei no Facebook. Como  disse Rodrigo, pode ser péssimo, pode ser ruim, posso continuar, posso excluir. Mas com certeza não é uma rede ~pequena demais para nós dois~, trata-se apenas de uma questão de criar um pouco de dignidade nessa minha cara e não incomodá-lo mais, e não esperar que ele um dia volte atrás dizendo que faço falta.

Ainda me sinto uma bosta. Acho que é tão normal quanto chorar. Acho que todas nós já nos sentimos ou vamos nos sentir assim algum dia, rejeitadas, feias demais, gordas demais, magras demais, com o nariz grande ou torto demais, com estrias ou celulite ou olheiras ou tudo demais. É engraçado que dentro dessa tal modernidade, em que não precisamos chegar aos 30 com namorado muito menos marido, em que podemos buscar uma vida independente e sexualmente variada, a grama old-fashioned do vizinho continua mais verde, e eu invejo o Renan ao pensar que ele arranjou alguém com quem partilhar coisas para muito além da cama. Justamente por ser algo que não tenho, essa é a minha concepção parcial de felicidade dentro da tal modernidade (o restante se resume a uma carreira promissora ou no mínimo a um emprego de que se gosta).

Portanto concluo que estou falando é de ideias românticas, não do romântico sentimento mas do romântico movimento, do herói em busca do inalcançável, da insatisfação eterna. O Renan e eu juntos sempre foi o meu ideal de felicidade, com muito Amor & Sexo & Bom Humor. A primeira chance que teria de ir até ele seria na minha volta ao Brasil, e sim, eu havia planejado isso, não podem me culpar por viver só de fantasia. Por ser boba podem, já que as coisas não resultariam de imediato de qualquer maneira, e eu tenho uma faculdade pra terminar. Só um príncipe da Disney pra me esperar nessas condições.

Não posso culpá-lo, só posso passar raiva mesmo, meu último semestre e eu nessa merda, como vou planejar TCC desse jeito, poucas horas sozinha e já desando em ranhos, que coisa boba Aline, já faz tanto tempo.

Já faz tanto tempo.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012


I feel like I was deleted from your world. But you’re still here somewhere.


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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Vida, devolva minhas fantasia

 

Renan está no facebook. Com um terno que parece maior que ele. E ela do lado, é claro. E eu que sempre achei ridículo foto de casal em perfil, como se não pudesse haver individualidades num relacionamento (mas  quem sou eu pra falar sobre relacionamentos?). E ele está usando a sua foto mais bonita no msn. E demorou um tempinho até eu me dar conta de que estava falando sozinha, em várias mensagens off sem resposta. Eu sempre falo demais.  Cheguei até a checar email mil vezes pra ver se ele mandava alguma coisa, mandar o quê criatura? Pra quê ele te mandaria um email??? Eu sempre demoro a perceber.

Novidades? Não. Eu mereço, eu é que procuro essas coisas. Minha primeira reação é óbvia e nada criativa: chorar. Aí agora eu só choro. Anormal seria não ter choro, então eu choro mesmo. Chorei na rua. Amassei um purê de batata aos fungos. Comprei uma coxinha e comi aos ranhos.  Quando toca Britney eu choro. Quando toca Ke$ha eu choro. Coldplay então, choros com caretas. E aí sai sangue do nariz porque devo estar com alguma sinusite doida. Mancho e meleco a manga direita da blusa. Abro a janelinha dele e choro mais um pouco. Não vou às aulas essa semana. Vou tentar não entrar no msn. Vou apagar meu histórico da web. Vou apagar nossas conversas. Vou comprar chocolate. Vou torcer pra que ele caia um tombo e se esfole todo! Porque eu sou um ser humano, né. Mas nada que deixe sequelas ou algo assim.

E essa sou eu tentando externar este momento feio da maneira mais realista possível para perceber o ridículo da situação e tentar levantar mais uma vez.

“Tô na fossa fulana”. “É mesmo, mas nem sabia que você tinha namorado”. “Pois, não tenho.” “Mas quem é então?” “É um cara aí de SP.” “Mas vocês tinham alguma coisa?” “Não, mas eu amo ele, nós éramos amigos.” “Mas o que aconteceu então?” “Ele tem foto com a mulher no facebook e parou de falar comigo no msn.”

 

Essa é a minha vida.

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