terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Madrid, aqui, e aqui dentro


Madrid is awesome. Um ar verdadeiro de Europa, como não podíamos ter aqui, porque Portugal é nossa casa no momento - ao menos é o que diz o meu cartão de residente. Ficamos num hostal retirado do centro, mas o metrô (ou metro, como dizem os portugueses) custa um euro e nos leva a qualquer ponto da cidade.

Não deu pra ver tudo o que queríamos. Queria ter dado uma passadinha em frente ao Santiago Bernabéu, mas ficava meio contra-mão pra maus turistas como nós, que recusam-se terminantemente a acordar cedo. Um sightseeing bus é sempre útil pra reconhecer o terreno, e depois deixar as pernas nos levarem pra onde mais nos agrada. O Parque Del Retiro é lindíssimo, cheio de gente caminhando, fazendo piqueniques, jogando bola. Um senhor mete um tango aqui, um tio toca Yesterday no violão ali. Passamos pelo espetacular Palácio de Cristal e pela Estátua do Anjo Caído, e depois percorremos aquelas ruelas cheias de lojas de souvenirs, de tapas, de Museos de Jamón e cervezarías. Chegamos à Plaza Mayor, outro ponto imperdível. É uma loucura aquele largo, cheio de restaurantes, gente sentada no chão, gente em volta de algum cara contando piada, gente em volta de algum caricaturista esperando sua vez de ser retratado - eu fui.

Os museus são obrigatórios. No Reina Sofia predomina arte moderna, conheci a obra de um artista muito legal chamado Efrén Álvarez, que faz uns desenhos críticos cheios de obscenidades, sem deixar de serem engraçados. O Thyssen foi o que mais me agradou (e o único que precisei pagar pra entrar, porque os outros dois liberam a entrada a partir das 18). Foi lá que encontrei Picasso, Dalí, Van Gogh, Monet, Gauguim, Kandinsky, Renoir... Aquelas coisas que a gente TEM que ver, não importa quão parco seja nosso conhecimento de arte, e com certeza todas as nossas professoras de Educação Artística do colégio apertariam os próprios pescoços de inveja se soubessem que lá estivemos. Ah, também tinha Miró, mas esse eu já conheci em POA alguns anos atrás, e com certeza não foi admiração à primeira vista. O Museu do Prado é o mais famoso, talvez o maior, mas não me impressionou tanto. É que é repleto daquelas obras clássicas, renascentistas. Quase tudo é Rafael, Goya e Velázquez. Gostei das pinturas negras do Goya, principalmente o famoso quadro de Saturno devorando um filho. Mas definitivamente, arte moderna me agrada muito mais. De todos esses gênios, ainda fico com os pênis-envoltos-em-coroa-de-louros-dos-patrões-capitalistas desenhados por Efrén Álvarez.

Bom, acho que agora é hora de ir ao que interessa, a aquilo que mais me agradou em Madrid: as festas. Ou, mais exatamente, ao lugar onde fomos três vezes seguidas fazer festa: o Teatro Kapital. Tem sete andares e uma pista principal, no alto umas mulheres lindas com um look sexy-extravagante dançando paulatinamente, e a alegria dos olhos femininos ficavam por conta de uns parrudões de tanquinho de fora se exibindo no palco. Teve homem-robô que emitia luzes verdes pra todo o lado, aqueles contorcionistas que se enrolam em fitas presas no teto, um percussionista e um saxofonista que apareciam acompanhando o ritmo dance que não parava nunca. Os amores efêmeros da vez foram um espanhol baixinho coisa mais linda, um mexicano com cara de menininho de liceu que passou a noite toda dizendo que me amava, e um outro espanhol muy guapo, estudante de psicologia e maluco, que me propôs uma caliente despedida de Madrid, mas sim, eu disse não, fui pro hostal e o espelho do elevador foi o primeiro a denunciar três chupões enormes no pescoço que agora eu tenho que cobrir com uma manta o dia todo, mas pelo menos a atitude besta foi recíproca, e ele e eu estamos no inverno europeu com a graça do Senhor.

Só faltou voltar chorando pra casa, já com saudade do casal de barmen que na terceira noite sabia quem éramos e que drink pediríamos - vodka com energético, porque não tinha suco de maçã. Quase dois litros de bebida no sangue, horas e horas sem comer nem dormir, e mais um avião pela frente, ao qual sempre preferirei um bom e balançante ônibus executivo. Ainda trouxemos o Rogério, sub-coordenador do projeto da Uni, que tinha chegado no Porto uma hora antes. O Dani eu preparamos um purê de batata com cebola refogada que tava deliciosíssimo, e eu dormi umas vinte horas seguidas, só levantando pra me abastecer de água às três da manhã.

O legal de festa assim é que todos sabem que ela acaba ali, que o nunca-mais-vamos-nos-ver se estabelece assim que a música termina. Aí a gente já ativa o botãozinho lembrar-e-só e segue mirando as próprias botinas. Talvez meu erro tenha sido esse, passar meu telefone por aí. Assim como o foi ligar pro Renan hoje de manhã, ouvindo dizê-lo uns "alô" fingindo que não ouvia os meus, mas ouviu, porque não me atendeu depois, e talvez a resposta seja justamente o que eu conversei com a Deh ontem. Fico pensando no que isso vai dar, fico me imaginando velhota remoendo todos os episódios cretino-escrotos que me moeram a vida toda, e amaldiçoando o mundo por não ter nascido lésbica, porque a coisa mais doce que ouvi em Madrid foi de uma loira no banheiro do hostal que me disparou sem medo e sem rodeios:
- Eres muy guapa. Tienes ojos muy lindos.



...- Gracias, pero lamentablemente me gustan los cabrones, fucking cabrones.











Um comentário:

  1. "Eres muy guapa. Tienes ojos muy lindos."


    Espero que agora me crias... ^^

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