Acordei pensando no dia em que Renan e eu nos encontramos, na parada de ônibus em frente à Realce. Era a velha ainda, depois foi modernizada com aquele troço transparente, onde é proibido colar anúncios, e um banco estranho. Antes de esperá-lo, fui passar o tempo na biblioteca municipal – que também ainda estava no lugar antigo, antes de ser transferida pro CEI – e lá fui pesquisar coisas sobre a África subsaariana pro meu trabalho em grupo de Geografia – era o momento mais eletrizante da minha vida e eu não consegui deixar de aproveitar pra fazer o tema!
A loja gospel da frente da parada tocou música alta e fervorosa por um bom tempo. Eu mascando Trident de melancia e renovando o tempo todo o brilho roll-on. Calça de suplex vagabundo, tênis (o melhor que eu tinha) e jaqueta laranja. Um perfume barato da Avon que ele gostou. Uma sombra azul-escura com certeza mal passada, porque eu não sabia esfumar naquela época. O Renan chegou com sua mochila e o moleton vermelho, manga curta por baixo num frio de junho. O cabelo arrepiado, as linhas na testa, as sobrancelhas grossas, os olhos verdes fundos, os poros dilatados. Sério, sério. Foi o abraço mais longo da minha vida. E o beijo também.
E eu nunca mais vivi algo tão intenso e tão verdadeiro como foi aquele dia.
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