segunda-feira, 16 de abril de 2012

Compondo aforismos

 

Passei a tarde com o Carlos estudando na Biblioteca Central. Descobri que aquele lugar se estende por uma outra salinha com mais três mesas viradas pras janelas e outras centrais com bancos estofados em veludo azul. Na pausa para um café, antes da nossa tediosa aula de Pessoanos, conversamos sobre as despedidas da vida. “Viajar é perder lugares”, citou ele. Acho que foi o Pessoa que o disse uma vez. E é mesmo, cada lugar visitado é uma perda, porque mal o temos e já o deixamos, uma hora ou outra partimos, perdemos.

Conhecer pessoas é perdê-las, modificou. Também está certo. Perder pessoas é parte da vida. Mas o Carlos, com aquele jeito de aluninho certinho, encasquetou que aquilo não estava bem. Na aula de Pessoanos, observou que deveria ser um verbo só, pra fazer um paralelo com “Viajar”. Sugeri “conviver”. Conviver é perder pessoas. Ficou um paradoxo bonito. A Letty e eu descemos pra Baixa, passamos na Toga, loja de trajes e lembranças acadêmicas, pra ensaiar as compras antes de voltar. E papo de malas, e quilos, e descontos de estudante. Tudo já tão perto.

Chegando em casa, notícias do Carlos por mensagem. “Crescer é perder pessoas. Não parece melhor?”. Descartei suas tentativas e lancei algo mais simples, direto e clichê: Viver é acumular saudades. E uma carinha triste no final. E um medo da volta, do reencaixe. Uma sensação incômoda de imaginar caminhadas sem Mondego, padaria sem pastel de natas, universidade sem maquininha de café de caramelo, e até caminhos sem ladeiras.

“Hoje Coimbra, amanhã saudade.”

Um comentário:

  1. Nada se perde, tudo se transforma, sob as leis da física.
    Eu prefiro acreditar nas leis da física, neste caso ...

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