segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

 

Quanto mais penso nisso, mais sinto a perda. E é claro que não consigo pensar noutra coisa. Tenho os piores sonhos acordada, verdadeiros daymares, em que o Renan me encontra em algum lugar do planeta e não me reconhece. Ou pior, dá uma de Genoveva do Machado e me convida para entrar, na maior felicidade simples, explicando que de repente amanheceu gostando de me ignorar.

Eu gostava de lhe contar coisas banais como “fiz purê de batata” ou “comprei uma pasta de alho” e aguardar os feedbacks criativos. Gostava de ver os vídeos que ele mandava e opinar com “legalzinho”, por mais que eu gostasse de alguns até, mas implicar era mais saboroso. E adorava suas tiradinhas bestas de um cérebro serelepe sempre a me contrariar. E o “Guria”? Eu era “A Guria”. Talvez eu tenha exagerado na demonstração de sentimentos nos últimos dias e por isso ele se foi. Talvez ele só tenha enchido o saco, porque sou tão romanticoide às vezes, tudo estaria bem se eu fosse melhor resolvida comigo mesma.

E olha só se eu não estou de novo bolar teorias! Aline querida, você odiaria quaisquer justificativas, quaisquer, todas doeriam do mesmo jeito! Imaginem-me agora com rosas verdes na mão ajoelhada dizendo “volte, volte”. Aos prantos! E ranho melecando as cobertas. E o meu nariz sangrando de novo.

Páthos, pathétikós.

Volte, volte :(

 

Também entrei no Facebook. Como  disse Rodrigo, pode ser péssimo, pode ser ruim, posso continuar, posso excluir. Mas com certeza não é uma rede ~pequena demais para nós dois~, trata-se apenas de uma questão de criar um pouco de dignidade nessa minha cara e não incomodá-lo mais, e não esperar que ele um dia volte atrás dizendo que faço falta.

Ainda me sinto uma bosta. Acho que é tão normal quanto chorar. Acho que todas nós já nos sentimos ou vamos nos sentir assim algum dia, rejeitadas, feias demais, gordas demais, magras demais, com o nariz grande ou torto demais, com estrias ou celulite ou olheiras ou tudo demais. É engraçado que dentro dessa tal modernidade, em que não precisamos chegar aos 30 com namorado muito menos marido, em que podemos buscar uma vida independente e sexualmente variada, a grama old-fashioned do vizinho continua mais verde, e eu invejo o Renan ao pensar que ele arranjou alguém com quem partilhar coisas para muito além da cama. Justamente por ser algo que não tenho, essa é a minha concepção parcial de felicidade dentro da tal modernidade (o restante se resume a uma carreira promissora ou no mínimo a um emprego de que se gosta).

Portanto concluo que estou falando é de ideias românticas, não do romântico sentimento mas do romântico movimento, do herói em busca do inalcançável, da insatisfação eterna. O Renan e eu juntos sempre foi o meu ideal de felicidade, com muito Amor & Sexo & Bom Humor. A primeira chance que teria de ir até ele seria na minha volta ao Brasil, e sim, eu havia planejado isso, não podem me culpar por viver só de fantasia. Por ser boba podem, já que as coisas não resultariam de imediato de qualquer maneira, e eu tenho uma faculdade pra terminar. Só um príncipe da Disney pra me esperar nessas condições.

Não posso culpá-lo, só posso passar raiva mesmo, meu último semestre e eu nessa merda, como vou planejar TCC desse jeito, poucas horas sozinha e já desando em ranhos, que coisa boba Aline, já faz tanto tempo.

Já faz tanto tempo.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012


I feel like I was deleted from your world. But you’re still here somewhere.


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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Vida, devolva minhas fantasia

 

Renan está no facebook. Com um terno que parece maior que ele. E ela do lado, é claro. E eu que sempre achei ridículo foto de casal em perfil, como se não pudesse haver individualidades num relacionamento (mas  quem sou eu pra falar sobre relacionamentos?). E ele está usando a sua foto mais bonita no msn. E demorou um tempinho até eu me dar conta de que estava falando sozinha, em várias mensagens off sem resposta. Eu sempre falo demais.  Cheguei até a checar email mil vezes pra ver se ele mandava alguma coisa, mandar o quê criatura? Pra quê ele te mandaria um email??? Eu sempre demoro a perceber.

Novidades? Não. Eu mereço, eu é que procuro essas coisas. Minha primeira reação é óbvia e nada criativa: chorar. Aí agora eu só choro. Anormal seria não ter choro, então eu choro mesmo. Chorei na rua. Amassei um purê de batata aos fungos. Comprei uma coxinha e comi aos ranhos.  Quando toca Britney eu choro. Quando toca Ke$ha eu choro. Coldplay então, choros com caretas. E aí sai sangue do nariz porque devo estar com alguma sinusite doida. Mancho e meleco a manga direita da blusa. Abro a janelinha dele e choro mais um pouco. Não vou às aulas essa semana. Vou tentar não entrar no msn. Vou apagar meu histórico da web. Vou apagar nossas conversas. Vou comprar chocolate. Vou torcer pra que ele caia um tombo e se esfole todo! Porque eu sou um ser humano, né. Mas nada que deixe sequelas ou algo assim.

E essa sou eu tentando externar este momento feio da maneira mais realista possível para perceber o ridículo da situação e tentar levantar mais uma vez.

“Tô na fossa fulana”. “É mesmo, mas nem sabia que você tinha namorado”. “Pois, não tenho.” “Mas quem é então?” “É um cara aí de SP.” “Mas vocês tinham alguma coisa?” “Não, mas eu amo ele, nós éramos amigos.” “Mas o que aconteceu então?” “Ele tem foto com a mulher no facebook e parou de falar comigo no msn.”

 

Essa é a minha vida.

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domingo, 8 de janeiro de 2012

Lengalengas

 

 

Renan não tem aparecido no msn como antes. O motivo pode ser mil coisas, desde resolução de ano novo até troca de turno de trabalho ou algum acontecimento que não me diz respeito. Vamos (tentar) parar de pensar que toda e qualquer mudança tem relação comigo, e aceitar que nem sempre tenho o direito de encher o saco. Pra isso tenho o blog, pra reclamar, desabafar, organizar os mimimis. Foi até conselho da minha melhor professora de linguística e didática de Coimbra e do universo: se têm algo a reclamar, seja o que for, façam-no por escrito. Isso ajuda a desenvolver uma boa escrita, que é uma questão de treino, e também os fará ver os fatos de modo mais concreto.

É como se eu escrevesse cartas que nunca vou mandar, que são compartilhadas com alguns, e que quem sabe um dia voltem a ser relidas por mim aos risos (ou aos prantos, sei lá). Agora vamos começar a falar de coisa chata, vamos falar da minha rotina. Eu gosto de rotinas. Até quarta-feira, quando recomeçar o mini-curso de francês, o tempo vai ser gasto quase da mesma maneira. Meu café da manhã é sagrado como mamãe ensinou, seja às 9 ou ao meio-dia. É a minha refeição mais saudável, quem sabe uma tentativa de purgar os pecados calóricos das horas seguintes. Faço minhas refeições no quarto, volto pra internet ou pros livros (mais pro primeiro que pro segundo), adio os últimos compromissos do semestre.

Como alma gorda que sou, já acordo planejando as refeições do dia, procurando receitas mirabolantes no Tudo Gostoso ou no Cybercook ou na Recepédia ou num blog de dona de casa que posta os pratos aprovados pelo marido e filhinhos, e volto à cozinha torcendo para que meus housemates tenham lavado a panela que quero usar. Ontem foi dia de fracasso culinário, botei água demais nos quindins e tentei fazer batata suíça numa frigideira que de antiaderente não tem nem o cabo. Acontece.

Meu quarto está arrumado, de embolada só tem a minha cama e a minha cara, passo o dia de pijama, ponho um casaco e passeio pela Baixa no fim da tarde. Raramente falo com gente ao vivo, a não ser com a caixa do Pingo Doce. Da minha outra housemate nem preciso comentar, o Dani tem horários diferentes, e nem com ele criei aberturas a ponto de poder conversar sobre o que escrevo. E assim, sinto que poderia passar dias e dias sem falar com ninguém, sei lá até que ponto isso é normal, nem me interessa saber.

O horário de recebimento de mensagens fica entre as 4 e as 5 da manhã, olha se não é um estudante da tradicionalíssima UC buscando distrações de fim de festa. Não posso me parar de ofendida, é o tipo que encontrei por aí, um pouco é azar porque todos sempre parecem muito queridinhos no início; um pouco é sorte porque seria difícil ir embora deixando alguém que realmente prezasse pela minha companhia; um pouco é escolha, e também posso escolher ignorá-los, como de fato ando fazendo. Aparentemente, evoluí um pouco nos draminhas de foreveralonice, isto é, as lengalengas são as mesmas, mas sem o chororô desesperado dos velhos tempos.

O mesmo não se aplica ao Renan, mas essa história é velha, vocês sabem. Não é porque as nossas conversas me fazem bem que ele estará sempre à volta. Talvez seja realmente sorte só encontrar esses canalhinhas por aí, meu cronograma ficaria meio apertado se eu tivesse mais uma alma por quem sentir saudades mais que sexuais, nada práticas e nada dissipáveis, sempre urgentes. Ter de lamentar o dobro no blog, imagina! Quem sabe fazer um post pra cada um… Eu não escrevo tão mal assim pra ter tanto o que praticar.

 

 

 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Cyberstalking

 

Pesquiso o Renan no Google quando ele não aparece e eu não tenho mais coisas bobas pra dizer em off. As entradas encontradas são geralmente velhas, de 2005, a não ser as relacionadas ao seu trabalho. Tem uma lista do Ensino Médio mostrando seu RG e notas baixas, e esses dias descobri outras duas entradas referentes a uma petição online que ele assinou há sete anos atrás, contra testes em animais. “Chega dessa palhaçada”, escreveu ele. E eu rio e sorrio. Acho que o nome disso é ternura. E é um pouco de loucura também.

Sem título

Não suporto a ideia de não ter notícias, talvez perca um pouco as medidas nas mensagens. Até quando estou viajando mando alguma coisa atrapalhada nos teclados estrangeiros de hostel. Xingo-o secretamente porque não é muito de mandar emails. Não é mais, porque trocávamos emails gigantíssimos antigamente. Ou não é mais justamente porque os emails gigantíssimos eram trocados antigamente. E eu choro só de pensar que me despedaçaria toda em milhentos de caquinhos orgânicos se um dia ele não aparecesse mais.

 

domingo, 1 de janeiro de 2012

Um Reveillón a la Line

 

DSC05025Nada mais requintado que copos de vidro coloridos cheios de frutas deliciosas ao longo de seu perímetro.

 

Na verdade, o que eu estava assistindo exatamente à meia-noite era um vídeo de maquiagem, e me dei conta de que preciso comprar um rímel, um delineador líquido e uma sombra novos o mais rápido possível. A lentilha fui eu que fiz, tava uma delícia, o Dani também comeu antes de sair. Como a minha housemate e colega de viagem de Londres tinha comprado bebidas com ele, descartei a possibilidade de ir junto – não é por não valorizar reuniões de fim de ano que precisava terminar o último dia de dezembro em tão má companhia.

Os chocolates que parecem negrinhos são trufas, seriam negrinhos sofisticados do Pingo Doce, mas não melhores que o clássico dos aniversários brasileiros. E uma coisa boa que vou guardar dos dois fins de ano passados em Coimbra é o fato de os vizinhos não conhecerem ou não apreciarem o lançamento de rojões fuleiros ou foguetes peido-de-velha desde as seis da tarde e para além da madrugada. Acho digno.

Feliz Ano Novo.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Tots som vianants


Uma certeza consolidada ao longo deste intercâmbio: pra descobrir se você realmente tem afinidades com uma pessoa, viaje com ela. Passe cinco, dez dias ao seu lado hospedado num hostel com dez  camas por quarto, percorrendo ruas desconhecidas com um mapa da cidade e outro do metro/metrô na mão, fazendo – ou não – planos diários, administrando o espaço do beliche e o da própria malinha de mão nos padrões low cost da tão odiada mas necessária Ryanair: medidas 55x40x20cm, e nada de estufar a bendita, que se não couber nesse compartimento aí embaixo, ou se enfiam mais roupas em algum lugar do corpo ou se pagam quarenta euros de multa.
 
imagesIf it fits, take it onboard. If it doesn’t, you’re fucked up.
 
É claro que de alguma forma se tem de pagar pra viajar pela companhia mais barata do mundo. O preço máximo de uma passagem da Ryanair não chega à metade de um bilhete da Tap pros mesmos destinos. A gente reclama um pouco, no já famoso tonzinho brasileiro “classe média sofre”, mas no final é engraçado. Após a aflição do “ai-meu-deus-será-que-a-minha-mala-vai-caber-no-buraco”, embarca-se ao som de uma música clássica que deve ter o objetivo de acalmar os ávidos passageiros buscando desesperadamente encontrar um lugar pra mala e pro próprio traseiro o mais rápido possível. O avião mal decola e começa a deliciosa sessão de propagandas: lanches, drinks, perfumes, relógios, cremes, cigarros sem fumaça – em três sabores diferentes –, ingressos e bilhetes de loteria com uma percentagem destinada a crianças necessitadas. Mas o melhor mesmo é a musiquinha de aterrissagem e as pessoas batendo palmas por mais uma chegada segura e pontual – afinal, empresas low cost não podem se dar ao luxo de atrasar os voos e pagar multas ao aeroporto. I love Ryanair:
 
Vejam o momento glorioso aos 45 segundos.
 
Voltando ao início do raciocínio, os acompanhantes são as engrenagens da aventura toda. É por isso que a minha ida ao Reino Unido foi tão desagradável, apesar do lugar maravilhoso, e até hoje nem vi as fotos direito. A viagem pra Londres foi na base do que eu chamei de turismo militar: visitar pontos turísticos como se fosse obrigação, com tempo contado, com alguém querendo me mandar limpar a bolsa “pra não perder tempo procurando as coisas”, ou determinar o horário em que eu devo tomar banho pra não me atrasar. Tal foi meu espanto e meu desgosto que não tive outra reação a não ser permanecer monossilábica durante a viagem toda, carregando dez quilos numa alça só da bendita mochila, tomando chuva em Dublin porque a pessoa não podia esperar meros cinco minutos debaixo de uma parada até os pingos passarem. Era proibido sentar em algum lugar para apreciar a paisagem, a palavra de ordem era exaustão. Não falo direito com ela até hoje.
 
(Em tempo: não viaje de mochila se você não for uma pessoa extremamente mulambenta básica, este é o princípio fundamental dos mochileiros. Se você for um mínimo limpinha fresca, vai levar roupa demais até arrebentar ou a alça da mochila, como eu, ou as costas, como a Lívia. Mesmo que seja uma malinha low cost, terá rodinhas maravilhosas que facilitarão o transporte. Perambular de mochilão com roupa de explorador que faz safári na África não é pra todo mundo.)
 
 
Toda essa reclamação – que o Renan ouviu mil vezes aos risos quando voltei de Glasgow – é pra contar o maravilhoso contrário de Barcelona. O Dani já é amigo desde o início, e a outra companhia foi uma doidinha mineira chamada Lívia, que está em Coimbra de Erasmus e vai embora em fevereiro. Pra melhorar, uma conhecida que estava no  mesmo hostel acabou virando inimiga em comum, e não há nada mais prático pra unir pessoas do que um bom antagonismo. Já tendo esclarecido que o melhor dos paraísos pode ser arruinado por convivências mal sucedidas, afirmo o óbvio – Barcelona é linda pra caralho.
 
DSC04380Não fui mas tirei foto.
 
Pegamos o Aerobus até o centro, na Plaza Catalunya, chegamos ao Hostel perto do meio-dia. O Dani e a Lívia conseguiram dormir até a noite, mas eu não tenho facilidade pra ficar na cama de dia desde os tempos de creche, então resolvi dar uma perambulada pelas Ramblas até dobrar no mercado La Boquería. Quis dar uma de chique e comprar um chocolatinho sem perguntar o preço, deduzindo que seria no máximo dois euros. Tomei no rego e tive que desembolsar o dobro.
 
DSC04403Cuidado con La Boquería
 
 

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Porto Vell
 
 
No dia seguinte, o Dani quis dormir mais e a Lívia e eu saímos pra explorar a região da plaza Espanya. É possível subir nas Arenas, um centro de compras, e ter uma vista panorâmica. Só faltou tirar foto da paella de pollo deliciosa que comemos na volta, com dois litros da melhor sangria que já bebi.
 
DSC04469Arenas de Barcelona
 
 
DSC04492Monumento do Miró no parque homônimo. O Google diz que é uma mulher e um pássaro, a Lívia disse que é um casulo, eu digo que é um troço colorido no meio de uma praça.
 
 
Curtindo um Beatles ao vivo em frente ao Palácio Nacional
 
 
DSC04528    O Anel Olímpico
 
 
DSC04555Olha esse céu
 

DSC04567El Corte Inglés no clima de fim de ano
 
 
DSC04582Temperatura agradável pra quem curte um inverno.
 

DSC04600Passei na lojinha do Dalí pra comprar um bottom da única – e mais famosa – obra de que conseguia me lembrar. Ainda tive que chegar em casa e pesquisar o nome do quadro. É muita cultura.
 
 
DSC04640Dá vontade de aprender catalão
 

DSC04646  Tenho adoração por essa combinação galhos mais céu azul. Cada um com seus gostos.
 
 
O terceiro dia foi a vez de andarmos de teleférico até o Castelo de Monjuïc e percorrermos o litoral, terminando a caminhada num bar da Barceloneta onde comemos um pão seco com salsicha e cebola com status de hot dog por 5 euros.
 
DSC04655Vista do Parque de Monjuïc para o Port Vell
 
 
DSC04682Line gateira jogando seu charme a um felino catalão
 
 
DSC04688Vista do teleférico rumo ao castelo
 
 
DSC04720Castelo de Monjuïc
 

DSC04748Vista para o Mirador
 
 
DSC04772Alegre
 

DSC04793O Porto Vell
 
 
DSC04811Difícil deduzir, mas ele tava fazendo música eletrônica.
 
 
DSC04828Praia da Barceloneta
 

 
Tinha descartado o Museu Erótico do plano, porque quase todas as resenhas eram negativas, dizendo que não correspondia às expectativas. A Lívia achou uma solução simples: “vamos entrar sem expectativas”. Ganhamos um descontinho por sermos brasileiras tal qual as funcionárias, e como visitantes recebemos um copinho de champagne. Realmente, o acervo não é grande coisa, mesmo pra quem tentou não esperar algo muito singular.
 
 
DSC04876Cadeira erótica francesa
 
 
DSC04910 Jardim Erótico - ColagemUma gracinha de jardim
 

 
A Sagrada Família é um dos maiores cartões postais de Barcelona. É claro que ela tinha de estar em obras, é como quando pobre resolve ir pra praia e chove, mas ainda assim a vista não deixou de ser impressionante.
 
DSC04958Dúvida do Dani: “Será que o Gaudí achou que ia ficar assim mesmo?” Risos.
 
 
Line na Sagrada Família
 
 
Nessa noite eu perdi as contas da vodka no hostel e paguei caro, passei metade do dia seguinte vomitando como não me acontecia desde a mistura de vinho com vodka e sprite numa das memoráveis jantinhas da galera da recepção. Não havendo injeção de Plasil, tomei foi soro mesmo, aquele com gosto horrível que nem o melhor aroma de laranja melhora, mas ao menos fiquei boa à tardinha pra irmos ao Parque Güell, outro must-see da cidade. O cair da noite dificultou a apreciação de tantos detalhes, mas a vista compensou e muito:
 
Olha esse céu de novo
 

 
A casa do Gaudí
 

 
Sobre festas: pra não dizer que não fui a nenhuma, fiquei umas poucas horas num lugar chamado Arena Vip, no dia 24, uma balada gay bem animada. A Lívia não foi porque estava cansada, e a nossa futura antagonista estava na rodinha com outras pessoas que não conheço muito bem. E se o santo não bate, ou a gente bebe mais ou vai pra casa. Quando qualquer drink custa no mínimo dez euros, a gente vai pra casa.
 
 
Pegamos o avião pro Porto às onze, dormimos lá uma noite pra não precisar voltar de madrugada pra casa. Aproveitei pra comprar uns postais alternativos num lugar chamado A Vida Portuguesa, que tem vários objetos autênticos e souvenires na onda dos produtos vintage, e dá vontade de levar metade da loja. “Sabendo que era impossível”, gastei três euros e vim embora. Ainda tirei uma fotografia da Lello & Irmão, considerada pelo Guardian em 2008 a terceira livraria mais bonita do mundo. O Porto parece  mesmo gostar de rankings: lá também tem o café Majestic, considerado o sexto mais bonito do mundo; e é a cidade da francesinha, que está entre os dez melhores sanduíches do mundo (ainda não comi pra dar minha opinião abalizada). Parece que algumas cenas de um dos filmes do Harry Potter foram filmadas na Lello & Irmão, mas não encontrei demais informações, e não assisti a nenhum dos filmes. Na época em que estaria mais suscetível a gostar dessas histórias, meus pais consideravam-nas coisa do diabo, então eu deixei pra lá, e um ano depois virei fã de AC/DC. Fotos do interior são encontradas no Google, no momento é proibido fotografar dentro da livraria. E as imagens da internet estão muito mais bonitas que a visão real.
 
 
 
Voltei pra minha bagunça coimbrã ontem à noite, e ainda não tive coragem de desfazer a mala. Passarei o Reveillón aqui, por motivos financeiros. Talvez faça uma lentilha, não pela tradição mas porque é gostoso mesmo. Não dou bola pra essa data, nunca passei ano novo de branco, ano passado virei o dia 31 assistindo a The Walking Dead e ouvindo os portugueses batendo panelas à meia-noite. Se o sucesso de cada um fosse apenas uma questão de fazer meia dúzia de rituais a cada 365 dias, as coisas seriam mesmo fáceis. Um rito que eu toparia fazer era aquele banho de pipoca do nordeste, mas porque acho a ideia engraçadíssima. E porque gosto de pipoca.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011



Renan tem recebido ligações de Portugal, e de acordo com minha sanidade e meus registros telefônicos, não sou eu. O que fiz foi dizer a verdade sem ter provas, contestar a acusação puramente lógica. Não que houvesse algo negativo em ligar, mas essa coisa de discar sem querer falar cairia bem talvez num sucesso sertanejo (universitário?), não na vida real. Expliquei-lhe que evito esta prática pra não ser inconveniente, ocultei-lhe meu medo específico de ouvir uma voz feminina do outro lado. Disse-me pra deixar pra lá, mas até que ponto ele deixou, não sei.

O Verissimo tem uma crônica em que um homem perde a aliança num bueiro e, em vez de contar a verdade, percebe que é melhor mentir e dizer que tinha ido a um motel com outra, que tirou-a pra namorar, e termina a falsa confissão sugerindo a separação. A mulher se tranca no quarto por dez minutos e sai de lá perdoando tudo, "porque o importante é que ele não mentiu pra ela". Se eu fosse mais esperta, também teria mentido, seria até um sinal de competência comunicativa respeitando a máxima da qualidade do Grice. Fui eu sim, eu diria, tentei ligar mas a ligação caía. Pronto, como dizem os portugueses. E eu não ficaria nesse mal-estar pensando que talvez não seja mais tão fácil acreditar em mim, afinal - shame on me - muito lhe menti, muito fui perdoada, e no fim, anos depois, nem sei quem estaria com mais crédito, se eu ou se meu celular sem saldo.

E porra, ligações de Portugal? Que mais a pessoa ia pensar? Um negócio mais bem plantado que o lenço de Desdêmona no quarto do Cássio, mas a vida nem sempre tem um Iago, às vezes a vida é o próprio Iago. Quem sabe se ela tivesse aplicado o Princípio da Cooperação com Otelo, mentindo que sim, traíra-o, conseguiria seu perdão e terminaria a história de pescoço intacto? E se Capitu corroborasse a paranoia de Bento e dissesse tá bem, o filho é de Escobar, agora me perdoa que não vamos pra Europa nada, quem sempre mandou aqui fui eu, seu bundão - teria ele baixado a cabeça mais uma vez na vida e terminado menos casmurro?

Sei lá, mas só queria contar mesmo que fiquei puta. Comigo, claro, com o rumo das coisas, com a mensagem eletrônica portuguesa que inicia as ligações pro Renan, com essas pedras no caminho. É o loop do Drummond.


sexta-feira, 4 de novembro de 2011

The rise and fall of Wonder Line



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Quatro provas numa semana, sendo duas no mesmo dia, na UC, não é mole. E olha que ainda teve um feriadinho dos mortos pra me dar tempo de terminar Macunaíma, que aliás é uma das obras mais geniais da galáxia e me rendeu muitas risadas, mas antes disso foi a Literatura Brasileira 1 que marcou “o ponto” como a professora disse, ou “a frequência” como dizem os portugueses, ou o teste, pronto. Jurei que não ia fazer rascunho e não ia fazer rascunho de jeito nenhum, dois minutos depois tava eu me matando de escrever a lápis pra passar tudo a limpo na última meia hora, tendo que cortar as respostas e pedindo por favor mais dois segundos só pra escrever mais duas palavras. “- Tá bem, duas palavras”. Obriguei-me a matar Iracema curto e grosso, sem a flor de maracujá, sem o favo da jati, sem a baunilha rescendendo no bosque. Uma análise meia-boca e uma lição que já deveria ter aprendido há dois semestres – não faz rascunho em provas de literatura, Aline, puta que pariu, não dá tempo, tu sabe!
 
Pra Literatura Brasileira 2, na quarta, já sabia direitinho. Mil esquemas sobre a folha do enunciado e umas respostas que se a professora não considerar no mínimo muito boas, vão me cair/cair-me-ão os butiás do bolso. Tá tudo lá, desde as ideias principais do Manifesto Pau Brasil e do Antropófago até a rapsódia da formação do povo brasileiro que é Macunaíma. A poesia está nos fatos, como somos como falamos, abaixo os parnasianos, abaixo a erudição, só me interessa o que não é meu, a alegria é a prova dos nove, nunca fomos catequizados fizemos foi carnaval, pouca saúde e muita saúva os males do Brasil são. Amém.
 
A quinta foi o heavy metal da semana, estudei estudei inglês e latim, poderia demonstrar ao vivo todas as conjugações do presente do indicativo da voz passiva e ativa da língua latina, a primeira e segunda declinações, as preposições com acusativo e ablativo, fiz todos os exercícios do Grammarway num salto e dei uma última olhada nos verbos irregulares tomando café no bar da Matemática. Por acaso encontrei o John hoje – o único professor que chamo naturalmente pelo nome, é um americano de Indiana cuja energia parece durar 24h por dia, acompanhada de bom humor e um amor pela docência admiráveis – e já sei que tive boa nota. O latim é outra história.
 
Pra não me enrolar muito no trágico, hoje pela manhã acordei e comecei a conjugar mentalmente alguns verbos da terceira conjugação mista, como qualquer pessoa normal faria, quando subitamente meu pensamento iluminou-se pavorosamente para a lembrança adormecida de que não havia passado a tradução do texto a limpo. Já tinha acontecido algo assim em Semântica, esqueci de passar uma questão – é que aqui não dá pra fazer aquele esquema de passar caneta por cima se usarmos folhas normais, a maioria dos professores exige as folhas de avaliação, que têm um cantinho destacável a ser assinado e entregue como comprovante de que fizemos a frequência – mas a questão em questão valia só dois pontos. Partilhando meu temor com o professor Sérgio por e-mail em busca de algum conforto, recebi a seguinte resposta: “Olá, Aline, valia 10 pontos do total de 20, espero que esteja enganada. Bom fim de semana!”. É, obrigada. Acho que ainda tenho chance de passar pra avaliação mista, anulando o resultado deste teste e indo a exame final, como todos aqueles pirralhos saídos do liceu que mal sabem declinar “rosa” farão. Eu tinha um janeiro livre de exames, mas acabou. Paciência. Perguntada pelo Elias hoje no almoço se todas as minhas avaliações eram contínuas, respondi que sim e ele brincou: “minha heroína!”. Heroína bem brasileira, disse eu, porque o tombo no latim foi mesmo fenomenal. 
 
Ao menos a próxima semana é normal, apesar de já ter de ir preparando o trabalho de Culturas Africanas. Hoje chegou o livro do Jacques Maquet que encomendei pelo Amazon, “As civilizações africanas”, que achei em inglês por 1 dólar (usado mas inteirinho) e não paguei muito pelo frete. Aqui na UC só tem o original, em francês. Nunca pensei que me sentiria tão miserável por não saber francês, quase todos os estudos sobre culturas e literaturas africanas estão em francês, artigos científicos se multiplicam na busca se incluído o francês, e eu não posso assistir às aulas do francês 1 aqui porque tenho latim nos mesmos horários. Sorte que o Brasil ainda traduz muitas obras e algumas vêm pra cá, porque se fôssemos depender dos portugueses, ou éramos todos poliglotas ou era muita reza e Google Translate.
 
E essas são as aventuras de Lineneutron, a guria que queria ser superguria mas não deu. Deve ser meio assim que os corredores de revezamento se sentem quando deixam cair o bastão. Mas eu até que tô bem tranquila, e olha que hoje ainda não tomei meu Alprazonan. Conheci alguém legal esses dias, o nome dele não é João nem Pedro mas é Tiago – parece que mais católicos que esses portugueses não há. Está no terceiro ano do direito, é mais adulto que o João, mais gentil também, e tem um quadro bem legal do Jim Morrison na parede. É claro que, pra minha cachola egocêntrica, atenção, admiração e apreço de alguém nunca são suficientes, faço a grotesca heroína romântica com missões relevantíssimas a serem cumpridas e milhentos de ideais inatingíveis. Como o Martim em “Iracema”, só que Martim expandiu o império português no Brasil fundando a mairi dos cristãos, eu o máximo que consegui foi inaugurar um cronograma de limpeza aqui em casa. Mas guardemos os melhores momentos antes que tudo se escafeda: nós vimos As Horas juntos, é um filme ótimo. E ele estava a usar o traje acadêmico um dia desses, cobriu-me com aquela capa preta pelo caminho, como as galinhas cobrem os pintinhos com a asa. Por certo a cena mais draculesca da minha vida.
 
 
E linkando o cu com as calças, sabiam que o Renan assistiu a Crepúsculo no cinema? Não consigo imaginá-lo a assistir a Crepúsculo em casa, muito menos no cinema. É como se eu saísse de casa pra ver a pré-estreia de um daqueles filmes do High School Musical, ou Glee. É como se o Professor Girafales se vestisse de Seu Madruga.
É o desconcerto do mundo.